O CONTRAGOLPE DA HERESIA


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“Amigos, eis 80 milhões de brasileiros numa humilhação feroz.”

Inauguro a crônica de hoje com a frase com que Nelson Rodrigues abriu seu texto no dia seguinte à desclassificação do Brasil nas oitavas-de-final da Copa de 66.

A humilhação de hoje é similar. Muda o número de vítimas – somos hoje 190 milhões – e mais nada.

Porque hoje, senhores, nossa retaguarda foi surpreendida pelo maior contragolpe que o Futebol poderia sofrer: a desaforada recusa de um brasileiro à nossa Seleção.

Sim, Diego Costa, um avante insensato que está ainda experimentando o prefácio de um sucesso na Europa, acaba de negar o manto que certa feita vestiu Garrincha, seduzido pelo convite para defender a Seleção da Espanha neste próximo Mundial, que acontece ironicamente aqui, nas barbas da nossa gente.

Ora, Diego, de que vale ter sofrido as penitências de uma infância miserável em Lagarto, no longínquo Sergipe, ter passado larga fatia da vida sentado na antessala do inferno, se na hora de ser coroado rei do povo você abdica do trono?

Não passou pela sua cabecinha que vestir o colete amarelo seria vingar a própria infância, redimir aquele menino que disputa peladas no Aterro do Flamengo?

Negar a mais opulenta das Seleções de Futebol é, numa hipótese branda, deixar de viver o sonho de Maradona, de Eusébio, de Puskas. Semideuses que teriam dado a vida para vestir essa camisa. Acontece que eles, Diego, sofreram o inapelável golpe da geografia, que os fez nascer distantes da terra que dá direito ao manto que transcende a glória.

Saiba que não temo pela nossa Seleção. Não há de ser nenhuma dificuldade desfilar pelo novo Maracanã sem você.

Temo, sim, é pelas nossas crianças.

Ou você não percebe como vocês, bailarinos da bola, influenciam os nossos filhos? É só ver o cabelo boçal que Neymar exibiu enquanto desfilou por estas praças e colocar reparo nos penachos aviltantes adotados pelas crianças Brasil afora – são todos iguais.

A vocês, que carregam o couro pelos gramados do mundo, é dada grande responsabilidade. E fazer gols é a menor delas.

Meu temor é que você, Diego, esteja inaugurando um perigoso movimento despatriótico, que você esteja tecendo a teia indissolúvel da indiferença na cara do povo brasileiro.

Esse é o meu único temor, uma vez que futebol não nos falta, nem jamais faltará.

Porque se na Espanha os craques nascem a cada título do Barça, aqui, no Brasil, eles brotam a cada grito da torcida do Flamengo.

Foto: Gazeta do Povo

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10 comentários sobre “O CONTRAGOLPE DA HERESIA

    • Gio, o Fascismo, que, aliás, escreve-se com sc, pressupõe um radicalismo político, o que, evidentemente, não é o caso desse texto.

      Concordo, entretanto, se você tachar a crônica de Nacionalista, porque penso que o nosso país precisa de um pouco mais desse espírito.

      De qualquer maneira, seja sempre muito bem-vindo. Pra ler comentar.

      Forte abraço,

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  1. Arnaldo Coimbra disse:

    Velho, discordo de praticamente todas as linhas seu texto. Exceto uma, mas isso vou deixar pro final. D. Costa, assim como milhares de brasileiros, sejam eles futebolistas ou não, encontrou lá fora o alento, o carinho e a oportunidade de uma vida. Na minha humilde opinião, a atitude do atleta está longe de ser um desdém com a verde e amarela. Pelo contrário, é um gesto de gratidão com o país que tão bem lhe acolheu.
    Mas agora você pode estar se perguntando: ok, mas qual é a exceção? Em que ponto o Sr. e eu concordamos? Estamos carentes de civismos sim, e não estou falando das linhas dos gramados, mas sim das linhas que definem nosso território. Cá entre nós, a nação não precisa tanto assim do D. Costa. O que ela precisa, e nisso, espero que todos concordem, é oferecer ao seu povo condições para que vivam felizes e satisfeitos nos braços da Pátria Amada Mãe Gentil. Caso contrário, os nossos Diegos vão continuar buscando abrigo no colo de mães adotivas mundo afora.

    E velho, fique certo de duas coisas. Primeiro, de que sua opinião por mais controversa que seja, nada tem de fascista. Segundo, de que o senhor ganhou mais um leitor.

    Saudações atleticanas.

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    • Arnaldo, o seu comentário é uma dessas coisas que me faz lembrar quão gracioso é escrever sobre futebol. Por trás das cortinas desse teatro há muito mais do que nos habituamos a imaginar.

      De fato, o assunto do Diego Costa é complexo. Mais do que crônicas, merecia ensaios, estudos, dissertações. E compreendo todos aqueles – uma esmagadora maioria – que dão razão ao atleta. Ele tem, sim, bons argumentos. A Espanha deu muito a ele e é bastante razoável que ele ame aquele país. Defender a Fúria é também plenamente aceitável. Só, insisto em pensar, não sob estas circunstâncias.

      Lembremos, por exemplo, do Liedson ou do Deco, que foram vestir a camisa de Eusébio. Cá pra mim, fato aceitável. Mais do que isso: justo. Porque nenhum deles tinha nem viria a ter a oportunidade de vestir a Verde e Amarela.

      Mas o nosso Diego Costa teve. E pior: chegou a vestir o manto.

      Jogou com ela, suou nela, vibrou quando foi convidado a vesti-la. E poucos dias depois, sem mais nem menos, tirou-a do corpo como se fosse um pijama qualquer e abraçou outra, que concorrerá diretamente com ela dentro de 9 meses. Aí, penso eu, fica fácil demais para o atleta, que, é bom lembrar, tem um poder de influência bárbaro sobre a nossa gente. Se já vivemos dias de pouca valorização da nossa pátria, imagino como serão os dias que seguem, especialmente pós-Copa, quando todos já tiverem esquecido o seu patriotismo dentro do Maracanã.

      Mas, enfim, o assunto é delicado como uma bola mal recuada.

      Quero, por fim, concordar contigo que o nosso país precisa oferecer mais a todos nós. Sempre precisou. Mas aí, se Diego Costa merece ensaios e dissertações, o Brasil nos convida a escrever verdadeiros tratados.

      Obrigado por somar de forma irretocável ao blog, Arnaldo.

      Muito me honra tê-lo por aqui.

      Um forte abraço,

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  2. Samuel disse:

    Cara, vá fazer algo mais importante do que falar sobre futebol. Dizer que Diego Costa é um exemplo, e merecia se espelhar em Neymar, vá a merda, cara!
    Aprenda, futebol não muda o mundo! 99,9% dos jogadores vivem com menos de um salário mínimo aqui no Brasil!
    Tá com bastante tempo ocioso pra ficar falando tanta asneira assim.
    Vá fazer algo útil, cara!

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    • Samuel, o que me preocupa mais no seu comentário é a nítida falta de interpretação de texto, aquilo a que chamamos de analfabetismo funcional, que, já que você é dado aos números, assola 18,3% da nossa população.

      E digo isso porque percebo que de toda a crônica, o que chamou sua atenção foi algo que nunca esteve nela: “Diego Costa merecia se espelhar em Neymar”.

      Volte a ler o texto, Samuel. E você verá que o que eu disse foi que os boleiros inspiram, sim, nossas crianças – vide o cabelo do Neymar, que foi parar em todas as cabeças Brasil afora.

      Mas, em suma, o assunto é delicado. E me alegro ao ver a polêmica em torno dele. Acho precioso que o nosso país esteja discutindo algo dessa seriedade.

      Se Diego Costa fez algo de bom ao futebol do Brasil, na minha opinião, foi nos proporcionar esse debate.

      De qualquer forma, seja sempre bem-vindo por aqui. Mesmo sem educação – não há qualquer espécie de censura nesse blogue.

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  3. Rômulo Freitas disse:

    Velho,
    não concordo com seu texto. Seleção não é exército, e mesmo este erra em obrigar uma pessoa a lutar, matar e morrer por sua nação. Ninguém deveria ser obrigado a isso. O pior de tudo não são opiniões como a sua que se sentiram humilhados por uma escolha tão banal quanto jogar por um time de futebol ou outro, mas sim atitudes como a do Sr. José Maria Marin, que apoiou a ditadura, e quer agora perseguir e tirar a cidadania brasileira (como se ele tivesse poder para isso) do dito traidor da “pátria de chuteiras” da “amarelinha” e outros tantos bordões que criaram para o time da CBF, que nada mais é hoje em dia que um produto de marketing para encher os bolsos de mafiosos. Uma seleção que opta por jogar mais nos EUA do que no seu próprio país deveria nos humilhar muito mais que a escolha de um jogador com DUPLA NACIONALIDADE de jogar pela Espanha.

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    • Concordo numa infinidade de pontos contigo, Rômulo. Acho também que a Seleção Brasileira foi banalizada e, tal qual um exército, virou instrumento de batalha nacionalista.

      Mas penso, meu caro, ser uma das únicas coisas na qual podemos nos agarrar.

      Por isso o discurso quase ufanista do texto. Temo estarmos perdendo o respeito por uma das únicas coisas que ainda faz brotar um sorriso na cara da gente.

      O brasileiro tem pouco, amigo. E sem a camisa Canarinho, terá menos ainda.

      Obrigadaço pela visita e pela manifestação da sua opinião.

      Forte abraço,

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