O FILHO DAS ARQUIBANCADAS


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Desde que Charles Miller apareceu por aqui, com o capotão debaixo do braço, o nosso Futebol produz incontáveis jogadores. Destes, uma mastodôntica maioria pertence ao cesto comum, de meros coadjuvantes. Alguns outros, raros, são alçados à restrita categoria de craques. E há ainda, mais escassos que uma expulsão de Carlos Gamarra, os que ganham o direito de transitar no Olimpo dos semideuses, onde vivem os gênios.

Mas há, amigos, uma espécime ainda mais rara do que todas: o jogador-torcedor. Este trabalhador que desce ao campo de batalha trajando a mesma camisa que vestia quando ainda via jogos encostado no alambrado.

E esta figura, mais diminuta a cada dia, parece encontrar em Alex o seu derradeiro representante – ele é o último jogador forjado no calor da arquibancada. Um inveterado coxa-branca que acaba de renunciar aos esquadrões milionários de Palmeiras e Cruzeiro para abraçar a graça sublime de vestir a camisa da sua infância.

É nascido o milagre maior do Futebol.

E isso, meus amigos, pede uma comemoração incontida, um carnaval sem precedentes, que estoura primeiro nas ruas e encontra ápice nas arquibancadas do Couto Pereira.

Será preciso, até, que cessem imediatamente as obras na reta da Mauá, pois aquele espaço será fundamental para acomodar a multidão sôfrega e desesperada que quer ver o último menino que joga por amor.

O furor, no entanto, não é privativo para a metade verde de Curitiba, mas aberto aos amantes todos deste esporte. Que venha, portanto, uma multidão multicolorida.

Venham ver Alex desequilibrando implacavelmente os adversários. Venham testemunhar esta terrível – e lícita – invasão de campo, acometida não por um exército covarde que desce à pugna, mas por um único e corajoso guerreiro que sai da fortaleza da sua arquibancada para disputar, palmo a palmo, cada centímetro do terreno.

Quando Alex joga com a verde-e-branca, não temos um ordinário jogador, mas um impetuoso corneteiro, que leva a euforia das bandeiras em riste para dentro das quatro linhas. Percebam, amigos, que todos os outros atletas são como bonecos de pebolim, presos a uma amarra tática, executando de forma exemplar suas funções no campo, ao passo que o menino de Colombo desfila com a leveza de uma criança, com o descargo dócil de um torcedor que só quer jogar bola a qualquer preço. E vencer a qualquer custo.

Notem como nenhum pé-de-ferro é justo quando se confrontam as pernas de um jogador convencional com as de Alex: o primeiro coloca apenas seus músculos e chuteira a favor do seu escrete; já o segundo empenha sua alma toda, do primeiro ao último suspiro, comprimindo num único gesto o berro alucinado do povão.

A entrega é tamanha que chego a temer, inclusive, pelo dia em que Alex for escolhido para o exame anti-doping – receio que os doutores vejam que naquelas veias não corre o sangue comum dos outros atletas, mas um amor desesperado, de viscosidade específica e textura celeste.

Alexsandro de Souza, meus amigos, é empurrado por ele próprio, fiel torcedor de si mesmo.

Não há uma única diferença entre este filho ilustre de Colombo e os outros 2 milhões de coritibanos.

Eles são uma mesma massa indissociável. Uma multidão apaixonada que tem como único compromisso extrair da bola a seiva prazerosa da vitória.

Foto: Felipe Gabriel/ LANCE!Press

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21 comentários sobre “O FILHO DAS ARQUIBANCADAS

  1. Eu vi um menino crescer descobrindo o futebol. Vi cada vibração quando o Coxa era campeão! Vi quando ele viu Alex jogar pela primeira vez… e o vi apaixonar-se ainda mais por seu time verde e branco… O vi chegar em casa com a camisa assinada, e o vi entristecer-se quando Alex foi embora! Alex reascendeu o amor de muitos pelo futebol do Coxa… e marcou para sempre o coração desse menino. Obrigada, Velho Cronista, por me fazer lembrar de tempos tão felizes da vida desse menino!

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    • São comentários como esses, Eliana, que me fazem jamais desistir de escrever. Saber que eu patrocinei essa sua lembrança é o maior dos troféus.

      Alegre-se, portanto, pois você acaba de entregar a este Velho a taça Jules Rimet.

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    • Obrigado pelo carinho, Safira. Um comentário desses é sempre aprazível, mas, devo dizer, quando ele vem de uma senhora que sempre tão bem discorre sobre o Futebol – notadamente este Coritiba, do Alex – a honra se torna ainda maior.

      Obrigado mesmo.

      Um grande e agradecido abraço.

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