A HERANÇA DE RIVELINO


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A rigor, o drible não passa de mais uma ferramenta do Futebol, como o passe, o arremate a gol, o recuo de bola. Mas, na essência, no âmago do jogo, o drible é infinitamente mais do que isso.

Ele é, meus amigos, o enfeite maior do Futebol. A columbina que se ajeita para o carnaval com penachos na cabeça, gracejos a tiracolo e um desejo ardente de arrebatar uma avenida inteira numa única coreografia.

E cada um de nós, no silêncio da nossa intimidade, acaba elegendo nossas modalidades preferidas de dribles.

Há um grande amigo meu, por exemplo, que andou escolhendo o chapéu como a maior de todas as fintas. Ora, é fácil concordar com ele: aquele estupendo suspender temporário da bola, que passeia levemente sobre a cabeça atordoada do adversário e cai cuidadosamente, como um véu que baixa depois do beijo na noiva, é mesmo uma cena rara, digna das mais inflamadas celebrações nas arquibancadas.

Conheço também quem atribua à meia-lua a ponteira dessa hierarquia, pela poesia concreta da separação temporária do driblador e da bola, enquanto mantém plantado no meio do caminho o marcador. Aquele meio segundo conta tanto quanto os 90 minutos e, por isso, penso até que deveriam vender ingressos separados só para vermos essa finta dramática.

Mas devo dizer, meus amigos, que tenho uma predileção inestimável por outro drible. Um golpe igualmente aviltante, mas que é pura sofisma, que carrega num único gesto toda a sorte de mentiras e ilusionismos. Falo do elástico, amigos, a mais inverossímil das fintas – o truque perfeito.

Em uma fração de segundo, o craque burla não só o seu marcador, mas toda a arquibancada. Ficamos todos lá, do alto, a procurar a bola, dando falta da protagonista maior do espetáculo, que agora mesmo estava ali, diante dos nossos olhos, mas que foi abruptamente surrupiada.

Mas eis que a bola logo reaparece, do lado contrário, onde ninguém a imaginava. O couro está lá, onde ele sempre esteve, preso ao pé do craque como estivesse amarrado no cadarço da sua chuteira. E o beque também está lá, mas atônito, procurando entender o arrebatamento público e vergonhoso que acabou de sofrer – fomos todos enganados pela engenhosidade do driblador, esse Ulisses preso em Ítaca que esquadrinha armadilhas perfeitas para ludibriar seu fiscal.

O elástico, meus amigos, a cada reedição nos ressuscita um pouco de Garrincha. Notem como o marcador vira mané por um instante, dançando com a leveza de um cisne, projetando o corpo todo para o lado vazio do campo, onde há apenas a sombra do adversário que, a esta hora, já deve estar de volta ao vestiário, tirando as chuteiras e bebendo água, rindo do seu próprio balé de intenções.

Celebremos, portanto, o elástico. E cantemos um hino todo ao Rivelino, que se não foi o seu inventor foi, por certo, seu alfaiate mais perfeito, que o desenhou à exaustão, ali mesmo, no campo, diante dos olhos incansáveis de uma plateia masoquista, que sempre pagou ingresso para ser enganada junto com cada marcador.

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