O BEQUE QUE SABE DO QUE É FEITO O FUTEBOL

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Há algo de inebriante em marcar um gol.

Notem como as crianças dos campinhos de pelada explodem, num júbilo inocente e feroz, quando conferem um tento. Elas berram, se abraçam, saltam piruetas impossíveis para celebrar o simples fato de terem tocado a bola pela última vez antes que ela atravessasse a linha imaginária desenhada entre duas sandálias Havaianas.

Ora, imagino então o furor que acomete um jogador profissional quando este anota um escore num estádio lotado, fazendo estourar a manada nas arquibancadas e patrocinando milhares – ou milhões – de sorrisos país afora.

Penso como é ouvir o estampido terrível que vem do povão, embriagado pela alegria contumaz do Futebol, olhar para aquela massa que vibra num coro uníssono, e pensar: “fui eu o gatilho supremo de toda essa felicidade, eu fiz o cimento desta casa balançar feito penacho”. 

Há de ser um sentimento ímpar, inexistente em qualquer outra faceta da vida. Um prazer inenarrável que nenhum de nós, mortais, teremos a felicidade de degustar.

E eu digo isso tudo, senhores, para falar apenas que entendo perfeitamente o gesto sublime de Antonio Carlos. Eu compreendo o beque do São Paulo empurrar a bola – duas vezes – contra as próprias redes, no clássico contra o Corinthians.

Ele o fez por nós, meus amigos. Fez pelos amantes da bola. Fez para ver explodir na boca de uma multidão o berro soberbo do Futebol.

Ele sabe bem o sabor de um gol. A favor, já fez mais de 60. E hoje, resolveu repetir o feito, mesmo que tivesse de vestir a carapuça de vilão. Ele acreditou no poder de recuperação do seu escrete e depositou toda a confiança no seu onze, na expectativa absoluta de vê-los marcar, do outro lado do campo, outros três tentos a favor do São Paulo.

Fiou-se na capacidade cirúrgica de Paulo Henrique Ganso, que, de forma magistral, apontou para o país inteiro o verdadeiro logradouro da gaveta. E fiou-se também em Luís Fabiano, que concluiu uma jogada cândida de Douglas e Pabón a gol. E por fim, doou sua fé ao seu companheiro de sistema defensivo, Rodrigo Caio, que também conhece os prazeres lícitos das redes.

E o São Paulo venceu.

Agora, devemos todos reverência a este correto irmão – Antonio Carlos é o beque que sabe, melhor do que ninguém, do que é feito o Futebol.

 

Foto: Rubens Chiri/www.saopaulofc.net

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AVENIDA PADRE CACIQUE, 891

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São só três palavras ao léu e outros três números à revelia.

Mas eles contêm um fragmento descomunal da história do Sport Club Internacional.

Eles formam o endereço do estádio Gigante da Beira-Rio. E trazem no seu nome a fusão perfeita entre a beleza do sacro e a garra audaz do maior dos índios – o apurado resumo do clube de Porto Alegre.

Hoje, este colosso do nosso Futebol, morada das glórias arrebatadoras de Falcão, abriu seus novos e imponentes portões para o povo.

E foi, meus amigos, uma experiência exuberante. O mais absoluto e espetacular delírio para a metade vermelha do Rio Grande do Sul, que se acotovelava diante do coliseu para desvendar cada pedaço da nova casa. Com os olhos turvos de uma comoção evidente, os arquibaldos suspendiam seus telefones celulares no ar à procura do melhor ângulo para registrar aquilo que amanhã, no trabalho, na escola, nas ruas e nos bares jamais caberá em palavras.

O estádio é um raro portento. Um essencial monumento ao Futebol.

E ainda assim, há nele algo mais relevante do que toda essa imponência arquitetônica: o endereço. Sim, porque o Beira-Rio permanece lá, à beira do rio Guaíba. Exatamente onde ele sempre esteve, exatamente onde ele ganhou a alcunha de Gigante.

Isso, amigos, significa muito mais do que nós podemos imaginar. Porque a mística implacável construída ao longo dos últimos quase 50 anos está mantida intacta.

A névoa terrível que sempre baixou no gramado, intimidando cada oponente, permanecerá lá, ainda mais espessa e inglória do que antes.

O espírito aguerrido de Dunga, que mergulhou num peixinho improvável contra o Palmeiras, em 1999, continuará lá. E a luz que desceu sobre Figueiroa no momento do gol antológico do Brasileiro de 1975 continuará fazendo morada ali.

E os adversários, já habituados ao alçapão vermelho, continuarão tremendo quando suas delegações despontarem pela avenida, revelando o Hades vermelho que vaza pela coroa branca que veste a mais nova fundação de Porto Alegre.

Os torcedores, que forjam a alma desse titânico campo, continuarão ocupando os mesmos lugares, entoando os mesmos gritos terríveis e inflamados de sempre, executando nas arquibancadas o sarau delirante de antigamente, com mil flâmulas vermelhas e dois mil cachecóis brancos a subir pelos ares.

E isso tudo, esse roteiro que segue os mesmos atos e cenas de décadas atrás, fará o escrete colorado se sentir inapelavelmente em casa. E não há nada mais cruel, meus amigos, do que jogar contra um onze que se sente assim, em casa. Porque ali, apoiado pela sua massa indelével, o time ganha uma coragem atroz, uma confiança medonha, e desce à pugna como uma criança cai na briga sabendo que na roda nervosa que pede por sangue está o irmão mais velho, impiedoso, pronto para ir à batalha ao menor sinal de socorro.

Essa acintosa convicção, que enverga até os mais confiantes adversários, estará sempre ao lado do Sport Club Internacional. O colorado jogará em casa, agora, mais do que nunca, posto que está de pé o colossal, o mastodôntico, o Gigante da Beira-Rio.

Foto: Jefferson Bernardes/ Agência Preview
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O VELÓRIO DO IMPOSSÍVEL

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Que fique marcada na pele e na alma das próximas gerações atleticanas esta verdade retumbante: o Futebol desconhece o impossível.

Quem esteve hoje na Vila Capanema é prova cabal disso. E mesmo quem não esteve, só de ler os feitos do Clube Atlético Paranaense – até agora indecifráveis –, também tratará de entoar a epopeia aos quatro ventos.

Pois o que vimos nessa noite, meus amigos, ainda não foi categorizado. Por certo mesmo, sabemos unicamente que não pertence à categoria do lógico, nem do viável, nem do factível.

Hoje, testemunhamos a morte concreta do impossível – depois desse Atlético-PR vs Sporting Cristal, é lícito que tudo aconteça.

Daqui em diante, não há jogo que não possa ser virado, partida que não possa ser empatada, troféu que não possa ser trazido para casa. Ao Furacão, tudo passa agora ao terreno do alcançável.

Mas, se ainda assim o menor sinal de hesitação quiser ocupar o coração rubro-negro na hora da angústia, eu rogo que Manoel, com sua categoria de zagueiro aprendiz de meia-cancha, afugente o pensamento pecaminoso como afasta uma bola de dentro da área. E que Ederson, com a frieza medonha de um artilheiro contumaz, instaure, com bombas de pé direito, o mais doce e afável pensamento de certeza – “vai dar, sempre deu, não vai ser hoje”.

Porque seja qual for a circunstância, independente do milagre necessário, do desafio pavoroso pela frente, quem veste a camisa do Clube Atlético Paranaense perdeu hoje o direito de duvidar.

Foto: Albari Rosa / Gazeta do Povo

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É CHEGADO O NOSSO LIBERTADOR

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Crispem-se as nucas dos amantes ferrenhos do Futebol europeu – eis a mais acachapante das verdades: a Copa Libertadores da América é o maior de todos os certames.

Não, meu caro – no, sir –, este título não pertence à Champions League.

Nem à Copa do Mundo, que por ser sagrada feito uma Jules Rimet, não desce aos terrenos impuros das suposições. Ela é hors concours como Pelé.

Voltemos ao embate travado entre o Velho e o Novo Continente.

Daquele lado, é verdade, desfilam Cristianos, Ibrahimovics e Ribérys. E há também os mais vanguardistas teatros da bola, que impõem uma terrível beleza a todo e qualquer espetáculo.

Acontece que nós, primos pobres do progresso, compensamos a falta de larjan com um cândido culto ao futebol.

Sim, porque aqui, nenhuma partida dura apenas 90 minutos. Pergunte a um botafoguense e ele dirá: o embate contra o Deportivo Quito, pela primeira fase do torneio, começou ainda no ano passado, quando a Ponte Preta sucumbiu diante do Lanús – já são quase dois meses de match e o onze carioca ainda nem entrou em campo.

Uma única participação neste inóspito campeonato e já não ligamos para mais nada. Perceba como anda sorridente o espírito de um torcedor do Atlético Paranaense. Seu novo estádio é erguido de maneira contumaz, numa marcha intransponível, no entanto, tudo quanto eles querem discutir é a escalação da estreia, contra o Sporting Cristal. Nada mais importa.

Porque o que nasce nesta quarta-feira não é uma mera competição; é um ritual suntuoso, uma fábula do tamanho das batalhas de Simón Bolívar, um almanaque que será entoado pelas próximas gerações de niños.

Cruzeirenses e atleticanos, em Minas, já estancam a ferrenha disputa clubística para que seus coraçõezinhos ocupem-se somente dela, da afamada Libertadores da América.

Notem as unhas dos Flamenguistas, que há muito deixaram seus dedos, carcomidas pelos dentes cobiçosos que querem repetir a epopeia de 81.

Vejamos também as outras torcidas, que inundam de medo e delírio qualquer partida. Um estádio sul-americano é um martírio ferrenho, que açoita qualquer adversário. Aqui, na América do Sul, time de fora não é visitante – é intruso.

Que me perdoem os assíduos frequentadores do sempre calmo e nunca vazio Camp Nou, mas olhemos por um instante para aquela arquibancada néscia de La Bombonera, aquele zoológico primitivo que tenta conter os desvairados que berram como se um pulmão inteiro fosse dedicado a ofender um adversário.

Se pudéssemos invadir o Defensores del Chaco em dia de jogo, tal qual cachorros – que têm sempre aval para desfilar pelos nossos estádios – veríamos que os jornais picotados e arremessados não são de ontem, nem de antes de ontem; são de dois, três anos atrás. Diários guardados pelos mais desesperados hinchas, que planejavam a vaga muito antes dela ser uma realidade palpável.

A Copa Libertadores da América é o Futebol em seu estado mais puro.

Portanto, amigos, eu vos convido a trocar as pilhas dos nossos radinhos, debulhar nossos jornais já amarelos que estão debaixo das camas, tirar o pó dos foguetes esquecidos na gaveta, aferir nossa pressão e exercitar nossa garganta, porque está para começar o maior campeonato de Futebol de mundo.

 

Foto: Juani Roncoroni/Brazil Photo Press/Estadão Conteúdo

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A HERANÇA DE RIVELINO

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A rigor, o drible não passa de mais uma ferramenta do Futebol, como o passe, o arremate a gol, o recuo de bola. Mas, na essência, no âmago do jogo, o drible é infinitamente mais do que isso.

Ele é, meus amigos, o enfeite maior do Futebol. A columbina que se ajeita para o carnaval com penachos na cabeça, gracejos a tiracolo e um desejo ardente de arrebatar uma avenida inteira numa única coreografia.

E cada um de nós, no silêncio da nossa intimidade, acaba elegendo nossas modalidades preferidas de dribles.

Há um grande amigo meu, por exemplo, que andou escolhendo o chapéu como a maior de todas as fintas. Ora, é fácil concordar com ele: aquele estupendo suspender temporário da bola, que passeia levemente sobre a cabeça atordoada do adversário e cai cuidadosamente, como um véu que baixa depois do beijo na noiva, é mesmo uma cena rara, digna das mais inflamadas celebrações nas arquibancadas.

Conheço também quem atribua à meia-lua a ponteira dessa hierarquia, pela poesia concreta da separação temporária do driblador e da bola, enquanto mantém plantado no meio do caminho o marcador. Aquele meio segundo conta tanto quanto os 90 minutos e, por isso, penso até que deveriam vender ingressos separados só para vermos essa finta dramática.

Mas devo dizer, meus amigos, que tenho uma predileção inestimável por outro drible. Um golpe igualmente aviltante, mas que é pura sofisma, que carrega num único gesto toda a sorte de mentiras e ilusionismos. Falo do elástico, amigos, a mais inverossímil das fintas – o truque perfeito.

Em uma fração de segundo, o craque burla não só o seu marcador, mas toda a arquibancada. Ficamos todos lá, do alto, a procurar a bola, dando falta da protagonista maior do espetáculo, que agora mesmo estava ali, diante dos nossos olhos, mas que foi abruptamente surrupiada.

Mas eis que a bola logo reaparece, do lado contrário, onde ninguém a imaginava. O couro está lá, onde ele sempre esteve, preso ao pé do craque como estivesse amarrado no cadarço da sua chuteira. E o beque também está lá, mas atônito, procurando entender o arrebatamento público e vergonhoso que acabou de sofrer – fomos todos enganados pela engenhosidade do driblador, esse Ulisses preso em Ítaca que esquadrinha armadilhas perfeitas para ludibriar seu fiscal.

O elástico, meus amigos, a cada reedição nos ressuscita um pouco de Garrincha. Notem como o marcador vira mané por um instante, dançando com a leveza de um cisne, projetando o corpo todo para o lado vazio do campo, onde há apenas a sombra do adversário que, a esta hora, já deve estar de volta ao vestiário, tirando as chuteiras e bebendo água, rindo do seu próprio balé de intenções.

Celebremos, portanto, o elástico. E cantemos um hino todo ao Rivelino, que se não foi o seu inventor foi, por certo, seu alfaiate mais perfeito, que o desenhou à exaustão, ali mesmo, no campo, diante dos olhos incansáveis de uma plateia masoquista, que sempre pagou ingresso para ser enganada junto com cada marcador.

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