A MELANCOLIA DE TER RIDO PRIMEIRO

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Nove minutos da segunda metade de jogo na Arena da Baixada.

A igualdade salomônica entre Atlético-PR e Corinthians aparece no imenso telão, que aponta o 1 a 1.

Mas Renato Augusto, como se não soubesse da festa alheia, arma um contragolpe velocíssimo, desses de manual, e faz tabela com Luciano, na esquerda, que retribui a gentileza entregando o couro na marca do pênalti, sem marcador.

De bate-pronto, perna direita na bola, o meia corinthiano não titubeia: fura a rede dos mandantes da casa e vira inapelavelmente o placar. Está imposta, com notas de extrema crueldade, uma derrota irreversível ao Atlético-PR.

Na estreia da pomposa casa rubro-negra, num jogo que não valia senão para a honra dos donos da farra, o Corinthians fatura a nota, vence o jogo e rouba as manchetes do dia seguinte.

No lado vermelho da arquibancada cinza, trinta mil homens tinham seus caráteres forjados pela dor do vexame.

A imensa torcida paulista, sem conhecer a misericórdia, zombava da tristeza paranaense. Uma alegria mórbida contagia todo corinthiano, que, orgulhoso, exibia no sorriso os despojos da batalha. Eles sabem que acabam de tatuar o nome na história. Venciam o primeiro jogo da nova Arena da Baixada.

E foi assim, com esse gozo aviltante e um insistente sorrisinho de canto de boca, que o povão corinthiano viveu toda essa semana. Nem lhe passava pela cabeça que hoje, na inauguração do seu terreno, da estupenda Arena Corinthians, alguém pudesse rescrever o mesmo medonho roteiro.

Mas foi, meus amigos. Foi exatamente assim. E foi pior.

Porque no causo triste da Arena da Baixada, o anfitrião teve ao menos a decência de anotar o inaugural tento do novo estádio, patrocinando por primeiro o êxtase coletivo, obra sagaz de Marcelo, leve feito pluma, que flutuou pela boca da área e soltou um chute embebido em ódio no canto de Walter.

Mas hoje, não. Nem isso os paulistas puderam sentir. Esta honra solitária coube à outra camisa alvinegra que ocupava o campo.

E todo aquele sorriso que vinha sendo ensaiado desde a noite de quarta-feira esmoreceu, caiu das bocas. A Arena Corinthians era o mais puro arrependimento. Todo e cada riso rido nos últimos quatro dias voltava por sete novos caminhos, com ranger de dentes e tremer de queixos.

Itaquera era, hoje, o retrato apurado da aflição.

Aquela noite de quarta-feira foi oferecida em sacrifício pela anulação imediata da vergonha de hoje. O gol de Renato Augusto foi repreendido, o chute medonho de Luciano, no primeiro tempo da fatídica vitória corinthiana, foi cassado. Mas os Roteiristas do Futebol, embebidos na mais fina ironia, riram dos pedidos alvinergos.

Estava devolvida, com requintes de crueldade, a perversidade estabelecida em Curitiba.

Só quem ri, agora, são os moços do Figueirense. Até, claro, eles queiram inaugurar também seu novo estádio.

 

Foto: Marcos Ribolli / Globoesporte.com

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A PALIDEZ QUE NOS CONSOME

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Todo clube de Futebol defende, antes e acima de tudo, suas cores. Cada qual é dono de duas ou três, pelas quais jura matar e morrer. Nesse compromisso honroso, o Atlético-PR adotou o vermelho e o preto. Não só uma cor nem a outra, mas a matiz terrível que brota do encontro entre as duas.

Mas ontem, meus amigos, o Atlético-PR foi a pura e cândida ausência de cor. Ontem, o escrete atleticano viajou a 2 mil quilômetros de distância e outros 3 e meio de altitude para defender, pasmem, o branco.

Sim, o branco.

Ali, em La Paz, quando o clube já não teria os gritos incansáveis da sua torcida, quando estava abandonado até pelo próprio fôlego do seu onze, bem ali, longe de casa, o Atlético-PR resolveu abrir mão também das suas cores, descendo à batalha com a pureza de uma noiva.

Um distraído que ligasse a televisão já pensaria ver um jogo do Santos, ou do Corinthians Paulista numa jornada de shorts claros, ou ainda do combinado dos médicos e dentistas do Bigorrilho. Tudo, menos um jogo do rubro-negro.

Sei que esse é o segundo uniforme do time. Sei também que o desenho é lícito e está cravado no estatuto do clube. Mas esta mesma camisa de viagem, a número dois, já teve mais cor em confecções passadas.

Nunca o vermelho e o preto foram tão ignorados assim.

Olhe de novo, meu amigo. Volte a ver a camisa do seu time e me diga se as duas cores que o definem não foram renegadas a um detalhe na gola e outro na ribana da manga. Note como só o que sobra ali, ilhado naquele canvas branco, é o escudo do clube. Fora ele, mais nada naquele conjunto pertence ao Atlético do Paraná. E isso, meus amigos, é um medonho golpe contra as tradições. É uma afronta ao código de honra que rege o Futebol.

E foi assim, irreconhecível, que o Atlético-PR entrou em campo ontem, espelho insosso do seu segundo uniforme, sem o brio que aquela camisa listrada, sangrando de tanto vermelho, costuma emprestar aos seus jogadores. Sem imprimir no adversário o pavor prévio, que brota na boca do estômago assim que ele sobe as escadas do vestiário e nota, do outro lado do campo, a camisa rubro-negra.

O Atlético-PR, ontem, foi derrotado por uma matiz.

Disse adeus à Libertadores por sonegar o que tem de mais precioso: o vermelho e o negro, como nos diria Stendhal.

Foto: Reuters

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O VELÓRIO DO IMPOSSÍVEL

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Que fique marcada na pele e na alma das próximas gerações atleticanas esta verdade retumbante: o Futebol desconhece o impossível.

Quem esteve hoje na Vila Capanema é prova cabal disso. E mesmo quem não esteve, só de ler os feitos do Clube Atlético Paranaense – até agora indecifráveis –, também tratará de entoar a epopeia aos quatro ventos.

Pois o que vimos nessa noite, meus amigos, ainda não foi categorizado. Por certo mesmo, sabemos unicamente que não pertence à categoria do lógico, nem do viável, nem do factível.

Hoje, testemunhamos a morte concreta do impossível – depois desse Atlético-PR vs Sporting Cristal, é lícito que tudo aconteça.

Daqui em diante, não há jogo que não possa ser virado, partida que não possa ser empatada, troféu que não possa ser trazido para casa. Ao Furacão, tudo passa agora ao terreno do alcançável.

Mas, se ainda assim o menor sinal de hesitação quiser ocupar o coração rubro-negro na hora da angústia, eu rogo que Manoel, com sua categoria de zagueiro aprendiz de meia-cancha, afugente o pensamento pecaminoso como afasta uma bola de dentro da área. E que Ederson, com a frieza medonha de um artilheiro contumaz, instaure, com bombas de pé direito, o mais doce e afável pensamento de certeza – “vai dar, sempre deu, não vai ser hoje”.

Porque seja qual for a circunstância, independente do milagre necessário, do desafio pavoroso pela frente, quem veste a camisa do Clube Atlético Paranaense perdeu hoje o direito de duvidar.

Foto: Albari Rosa / Gazeta do Povo

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O MENGO, A MAGNÉTICA E O MARACANÃ

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O Maracanã e o Flamengo formam uma dupla lapidar, perfeita em cada um dos seus encontros. São como Pelé e Coutinho, siameses do balé do Futebol, que se complementam de uma forma que excede nosso parco entendimento.

Dentro daquele colossal campo de batalha, quando o rubro-negro joga, ninguém sabe ao certo o que é estádio e o que é torcida – tudo é uma só coisa, uma massa vibrante, carregada de vida e furor.

E ontem foi assim.

Por 90 minutos, o novo Maracanã se arrependeu de ter encolhido – 70 mil lugares foram pouco. Do lado de fora, os torcedores que não conseguiram entrar se acotovelavam à procura de um fiapo verde de campo – qualquer coisa que fosse já os permitira dizer, por toda a posteridade, “eu vi”. Com seus pavilhões ao sabor do vento e seus corpos suando nas camisas compradas às pressas no camelô a caminho do campo, os populares apertavam suas sôfregas orelhinhas contra o radinho de pilha, procurando entender o que acontecia do lado de dentro daquele gigante de concreto.

Para que se estabelecesse um pouco de justiça, devo dizer, era preciso que as autoridades abrissem os portões, liberassem as catracas e convidassem o povão ao deleite. Seria uma compensação quase justa dos mandatários da bola, que subiram o preço dos ingressos a absurdos R$ 250 e transformaram em festa de gala o carnaval mais popular do país.

Mas os gritos desesperados de quem estava do lado de fora, ao contrário do que se pode imaginar, não foram em vão. Ao contrário, foram sentidos lá dentro, pela multidão pagante, que, por isso, empenhava ainda mais seu pulmão a cada canto, como se cantasse também por quem estava nos entornos do estádio. E dentro das quatro paredes de cal, o escrete carioca também percebia a presença de todo o Rio de Janeiro ali – quem não tinha mais fôlego para continuar uma disputa física contra um Atlético-PR mais voraz, encontrava nos gritos do povão os músculos que as pernas pareciam ter perdido.

Jayme de Almeida, matreiro, desenhava um Flamengo inteligente e, aos poucos, preparava terreno para o tricampeonato. Era um homem do povo arquitetando uma solenidade alegórica para a sua própria gente, que ocupava as arquibancadas como numa celebração em família onde que todo mundo se sente um pouco em casa.

E assim, arrebatado pela magnética torcida, o Flamengo brecou o ímpeto dos atleticanos e encurralou o esquadrão visitante no campo de retaguarda, fazendo aquele antes devastador furacão perder força, descer à condição duma remansada frente fria e soprar não mais do que a brisa fraca que acomete a orla de Copacabana no fim de março.

O Maracanã estava reinaugurado, com galardão e honrarias, como rege a cartilha de um colosso que empresta o nome do Homero do futebol brasileiro, o jornalista Mário Filho.

Foto: noticiasfla.com.br

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A REENCARNAÇÃO DA VELHA BAIXADA

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Parem as máquinas, meus amigos.

Cessem o que quer que estejam fazendo, porque trago uma notícia lúgubre para compartilhar com os senhores: fomos todos irremediavelmente enganados pelo ardiloso Clube Atlético Paranaense.

Sim, meus caros, somos frágeis vítimas de uma contravenção perfeitamente legal.

Falo da escolha do estádio temporário em que o Atlético escolheu mandar seus jogos enquanto sua Arena recebe um banho de prata para a Copa do Mundo de 2014.

Enquanto todos os clubes que cederam suas praças à Fifa e seus confrades indicaram, inocentes feito crianças, campos neutros para mandar seus jogos, o Furacão escolheu a perniciosa reencarnação daquele que foi o seu estádio por toda a vida: a inóspita Velha Baixada.

Sim, meus amigos: o Estádio Durival Britto e Silva, alcunhado de Vila Capanema, é o parasita ideal para receber uma alma antiga, que o futebol brasileiro pensava estar soterrada pela memória pobre de todos nós.

Sobre aquele campo cansado do Paraná Clube paira a pesada atmosfera do antigo Caldeirão.

Olhem bem. Mirem com cuidado, meus amigos. Está tudo lá.

Os alambrados frágeis são os mesmos que um dia cederam ao peso da comemoração incontida de Oséas e Paulo Rink, depois de um Atletiba incontestável em 1995. As arquibancadas frias, tal qual as tubulares de antigamente, oscilam ao sabor dos cânticos fervorosos da massa atleticana. A proximidade entre a torcida inflamada e os jogadores em campo é a mesma, como que medida com régua, oprimindo especialmente os laterais e pontas adversários, que jogam sob o medo terrível de ter suas camisas arrancadas pelos arquibaldos desse opressivo campo de batalha.

Tudo ali lembra à perfeição o saudoso Joaquim Américo.

E assim, numa manobra oculta, o Atlético-PR tem jogado confortavelmente em casa, empurrado pelo pulso ostensivo de um estádio que jamais vai morrer, mesmo tendo sido posto ao chão 15 anos atrás. E o mais engenhoso capítulo do golpe dos sulistas é este: deixar o país todo pensar que o time está saudoso de sua cancha própria. “Vamos pegar o Atlético Paranaense em campo neutro. Dá pra ganhar”, pensam os desavisados adversários, enquanto a metade vermelha de Curitiba não desmente, apenas sorri afavelmente e concorda com a cabeça, num gesto mais falso que a notícia de um novo Pelé.

Com essa reencarnação vil – que já é terrível no longo Campeonato Brasileiro e torna-se implacável na curtíssima Copa do Brasil, onde jogar numa casa despótica beneficia largamente o mandante – o Furacão vem prevalecendo arbitrariamente sobre incontáveis times.

Resta, agora, passar por um último adversário para, enfim, arrastar para o Joaquim Américo a taça inédita da Copa do Brasil.

Acontece que o combatente de agora não está carente de um estádio, como o Palmeiras das oitavas ou o Internacional das quartas. Antes, está vivendo os primeiros e melhores dias do reencontro com a velha casa, que calha ser o mais místico teatro do Futebol. Um hostil terreno com quem o mandante do derradeiro jogo mantém uma tórrida relação de paixão e êxtase.

Nesse duelo emblemático de rubro-negros, o Flamengo – de Jayme e não de Mano – tem a árdua tarefa de sair incólume do alçapão atleticano.

E no jogo de volta, o Maracanã ocupa o papel de última fortaleza – é o único contraveneno capaz de frear a turbulência que a reencarnação da Velha Baixada faz ressoar pelo país.

Foto: Fernando Freire/Globoesporte.com

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