O DONO DO GESTO

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Primeiro nos surrupiaram a taça Jules Rimet. Agora, sem o menor sinal de diligência, a vida nos toma de assalto Bellini, o capitão que canonizou nossa tacinha.

Já perdemos outros campeões antes. E todos nos doeram na alma.

Mas esse foi diferente.

Porque Bellini não foi só um jogador extraordinário, lendário beque de vigor físico exuberante, contumaz cabeceador. Foi, antes e acima de tudo, um marco indelével na história do Futebol.

Foi dele a ideia primeira de levantar a taça na hora da comemoração. Tomado por uma humildade arrebatadora, o eterno capitão quis oferecer o troféu ao mundo todo, dedicar aos arquibaldos na Suécia a graça tenra da tacinha de ouro. E quis também, orgulhoso, mostrar aos fotógrafos do mundo todo o espólio da sua guerra.

Aquele era o primeiro título do Brasil. E podemos dizer, sem grande temor, que era também o primeiro título da história do Futebol – nenhum dos campeões anteriores tomou o cuidado capital de erguer o troféu acima da cabeça e, assim, numa distração tétrica, esqueceram de legitimar suas conquistas com o gesto essencial.

Tiremos, portanto, cada estrela bordada numa camisa antes de 1958. Perdoemos, de uma vez por todas, o nosso Barbosa, visto que aquele Maracanazzo, aquele chute medonho de Ghiggia não nos tirou rigorosamente nada.

A graça suprema, o sumo instante do Futebol, a ação que autentica uma conquista nasceu só depois, na Suécia, naquele 29 de junho de 1958.

E de lá para cá, todo capitão do mundo ergue suas taças não só para celebrar um título, mas para brindar publicamente o homem que inventou o maior momento do Futebol.

O teu gesto, Bellini, vale mais que o ouro da Jules Rimet.

Foto: Agência Estado

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