O BERRO ESCRITO NUM CARTAZ

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É dentro das quatro paredes de cal de um campo que são contados os maiores feitos do Futebol. Mas é perto dali, nas arquibancadas que acomodam o infatigável povão, que acontece o transcendental.

E foi isso, meus amigos, o que nós vivemos hoje no Maracanã.

Vamos ao contexto.

O Fluminense recebia o São Paulo à procura de um sopro de fôlego na disputa contra a Série B, travada num improvável clássico contra o Vasco da Gama.

Logo na aurora do jogo, uma menina, que não deve ter vivido ainda 8 anos, conquistava a atenção dos populares: ela usava um cartaz feito à mão, com letras inegavelmente infantis, para levar um apelo ao arqueiro tricolor: “Diego Cavalieri, seja meu Papai Noel. Me dá sua camisa”.

A poucos metros dali, no campo, o São Paulo, indiferente a tudo, abria o placar. E o desespero que recaía sobre todo pó de arroz no Maracanã também visitava a daminha. Acontece que a aflição dela era diferente, amigos. Dentro daquele coraçãozinho frágil cabia apenas o sobressalto breve, inocente, de quem sabe que a virada chega logo, como chegarão os trens da Linha 4.

E como toda virada começa com um empate, Nelson Rodrigues trouxe seu Sobrenatural de Almeida para marcar a favor do tricolor, depois de a bola ricochetear duas vezes na trave paulista.

Mas o tempo corria irremediavelmente e o empate não era o bastante. O jogo já conhecia seu segundo tempo e o Fluminense não varava o cerco armado por Muricy Ramalho. A essa altura, com o ponteiro maior perto da conhecer a última volta, o Maracanã era soluços de desespero e angústia. Mas não ela, meus amigos. Não a nossa torcedora. Ela era dócil como nenhum fã sabe ser. Ela só esperava. Ela e seu indefectível cartaz.

Até que o acaso, cansado de segurar a euforia carioca, deu aval e permitiu que Gum cabeceasse contra o gol de Denis e corrompesse a arquibancada com êxtase. Nascia o gol da virada, da vitória certeira, da possibilidade real de permanecer na Série A para o ano da graça da Copa da Mundo de 2014.

Nesse momento, quem olhava para a torcida via sorrisos, via bandeiras, via lágrimas. Mas só quem olhava para a menina via a alma exposta do Futebol. Só aquela criança conduzia a graça suprema de saber esperar.

Em vez de pulos e danças, a menina mantinha o cartaz elevado como fosse a última muralha da sua fortaleza, esperando que, entre tantos abraços acalorados dos companheiros, entre tantos microfones desesperados, entre todos os flashes que cegam, Cavalieri olhasse exatamente para ela.

E ele olhou, meus amigos. Ele olhou.

E veio em sua direção para, sem demora, puxar aquela donzela para dentro do campo, como que querendo que ela experimentasse o terreno sagrado do nosso Futebol. Mas engana-se quem pensa que a menina tocou a grama com seus pés – ela é imaculada demais para isso. O guardião do Flu a manteve o tempo todo apertada contra seu próprio peito ofegante, num abraço confidente, com mais vida do que qualquer outro cumprimento trocado entre os 11 vencedores do embate.

A menina foi arrebatada, caros leitores. O retrato mais apurado da inocência experimentava exatamente os mesmos braços que vivem de guardar a cidadela do Fluminense.

Ela fechou os olhos como se caísse no colo do pai depois de uma demorada colônia de férias no Irajá.

E por um instante, o estádio inteiro se esqueceu da posição do escrete na tabela, dos problemas que o clube coleciona com o patrocinador, da volta de Dario Conca – o Maracanã estava todo ali, no meio daquele abraço.

O arqueiro tricolor, então, devolveu a garota à arquibancada, já com a camisa 12 nas mãos, virou as costas e marchou para o vestiário, pensando provavelmente que o futebol não é aquilo que ele faz dentro do campo, mas aquilo que o povo vive fora dele.

E eu gosto de imaginar que a nossa heroína anônima marchou para o outro lado com seu pai, agarrada àquela camisa como torcedores se agarram à matemática para continuar sonhando.

Nenhum outro arqueiro vai conseguir proporcionar a qualquer torcedor a mesma euforia. Porque o que ela acabou de ganhar, meus amigos, não foi uma camisa – foi o maior troféu do Futebol.

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A REENCARNAÇÃO DA VELHA BAIXADA

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Parem as máquinas, meus amigos.

Cessem o que quer que estejam fazendo, porque trago uma notícia lúgubre para compartilhar com os senhores: fomos todos irremediavelmente enganados pelo ardiloso Clube Atlético Paranaense.

Sim, meus caros, somos frágeis vítimas de uma contravenção perfeitamente legal.

Falo da escolha do estádio temporário em que o Atlético escolheu mandar seus jogos enquanto sua Arena recebe um banho de prata para a Copa do Mundo de 2014.

Enquanto todos os clubes que cederam suas praças à Fifa e seus confrades indicaram, inocentes feito crianças, campos neutros para mandar seus jogos, o Furacão escolheu a perniciosa reencarnação daquele que foi o seu estádio por toda a vida: a inóspita Velha Baixada.

Sim, meus amigos: o Estádio Durival Britto e Silva, alcunhado de Vila Capanema, é o parasita ideal para receber uma alma antiga, que o futebol brasileiro pensava estar soterrada pela memória pobre de todos nós.

Sobre aquele campo cansado do Paraná Clube paira a pesada atmosfera do antigo Caldeirão.

Olhem bem. Mirem com cuidado, meus amigos. Está tudo lá.

Os alambrados frágeis são os mesmos que um dia cederam ao peso da comemoração incontida de Oséas e Paulo Rink, depois de um Atletiba incontestável em 1995. As arquibancadas frias, tal qual as tubulares de antigamente, oscilam ao sabor dos cânticos fervorosos da massa atleticana. A proximidade entre a torcida inflamada e os jogadores em campo é a mesma, como que medida com régua, oprimindo especialmente os laterais e pontas adversários, que jogam sob o medo terrível de ter suas camisas arrancadas pelos arquibaldos desse opressivo campo de batalha.

Tudo ali lembra à perfeição o saudoso Joaquim Américo.

E assim, numa manobra oculta, o Atlético-PR tem jogado confortavelmente em casa, empurrado pelo pulso ostensivo de um estádio que jamais vai morrer, mesmo tendo sido posto ao chão 15 anos atrás. E o mais engenhoso capítulo do golpe dos sulistas é este: deixar o país todo pensar que o time está saudoso de sua cancha própria. “Vamos pegar o Atlético Paranaense em campo neutro. Dá pra ganhar”, pensam os desavisados adversários, enquanto a metade vermelha de Curitiba não desmente, apenas sorri afavelmente e concorda com a cabeça, num gesto mais falso que a notícia de um novo Pelé.

Com essa reencarnação vil – que já é terrível no longo Campeonato Brasileiro e torna-se implacável na curtíssima Copa do Brasil, onde jogar numa casa despótica beneficia largamente o mandante – o Furacão vem prevalecendo arbitrariamente sobre incontáveis times.

Resta, agora, passar por um último adversário para, enfim, arrastar para o Joaquim Américo a taça inédita da Copa do Brasil.

Acontece que o combatente de agora não está carente de um estádio, como o Palmeiras das oitavas ou o Internacional das quartas. Antes, está vivendo os primeiros e melhores dias do reencontro com a velha casa, que calha ser o mais místico teatro do Futebol. Um hostil terreno com quem o mandante do derradeiro jogo mantém uma tórrida relação de paixão e êxtase.

Nesse duelo emblemático de rubro-negros, o Flamengo – de Jayme e não de Mano – tem a árdua tarefa de sair incólume do alçapão atleticano.

E no jogo de volta, o Maracanã ocupa o papel de última fortaleza – é o único contraveneno capaz de frear a turbulência que a reencarnação da Velha Baixada faz ressoar pelo país.

Foto: Fernando Freire/Globoesporte.com

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