A CRÔNICA QUE NUNCA FOI

Screen Shot 2013-12-12 at 16.15.00

A Ponte Preta não foi campeã nesta quarta-feira, como não foi nesses 113 anos. Por isso, essa crônica celebra exatamente aquilo tudo que ontem poderia ter sido, mas não foi.

***

Foi bem mais do que um século inteiro de uma covarde negação. Um sortilégio que insistiu em frear o ímpeto digno da Ponte Preta entoar o enunciado maior do futebol: “eu sou campeão”.

Mas eis que agora, 113 anos depois, esta tábua perversa está lá, desfragmentada no gramado do Estádio Ciudad de Lanús.

Tragam, portanto, um mausoléu solene e toquem a marcha fúnebre – acaba de morrer a escrita mais velha do nosso Futebol.

A incongruência sobrepujou a lógica dos roteiristas da bola. É como se Romeu desprezasse as ordens de Shakespeare e decidisse por simplesmente não beber o veneno.

Mas esqueçamos este passado, esta profunda mágoa que mantivemos do esporte bretão – ela acaba de ficar para trás. De repente, em uma única noite, uma angústia secular é soterrada, porque, enfim, tudo valeu a pena.

A Associação Atlética Ponte Preta é a mais sacrossanta campeã do Futebol Sul-americano. E não há, em todo terreno liberto por Simón Bolívar, clube mais merecedor dessa arrefecedora taça. Porque não houve, jamais, quem tenha esperado tanto para lançar suas mãozinhas sôfregas sobre ela.

Onde está agora Homero, o poeta maior, para cantar os feitos de Rildo, de Fellipe Bastos, de Elias? Por onde anda a voz rouca de Armando Nogueira para imprimir na sua singular poesia o feito alcançado pela nau pontepretana?

Num momento desses, Nelson Rodrigues deve estar pedindo licença numa reunião qualquer no céu para escrever, num guardanapo de bar, uma de suas frases tórridas, de estúpida magia, que resume a essência maior de um jogo de Futebol.

Lamento pela ausência desses semideuses da literatura futebolística, porque o feito que se alcançou no inóspito terreno argentino é digno de seus versos. E lamento também por aqueles torcedores da Ponte Preta que não estão mais entre nós. Ai, meus amigos, como me dói a alma pensar que vocês não estão aqui para ver o que os meus olhos agora vêm. Como eu queria poder compartilhar com cada um a cena dantesca que se desenha agora no gramado vasto de La Fortaleza.

Roberto traz a taça do continente na mão, girando uma volta completa pelo campo enquanto esbanja o espólio maior desta batalha, como quem quer jogá-la ao povo, ensandecido nas arquibancadas. Mas Roberto, comedido como um arqueiro deve ser, mantém o troféu nas mãos como fosse uma bola alçada na área, porque teme perdê-la para sempre. Porque uma taça sagrada como esta é desejada como a Jules Rimet, e seria de assalto tomada por um torcedor em desespero, sedento por confirmar que não se trata mesmo de mais uma ilusão que o Futebol vive de aprontar.

Esse caneco, meus amigos, pertence à rara categoria dos troféus genuínos, ganhos não numa disputa de Futebol, nem tampouco nos bastidores, mas numa batalha ferrenha travada contra o acaso.

Mas voltemos ao Roberto e aos soldados em campo.

Eles agora pulam numa volúpia indelével, que jamais vai deixar a memória de quem está aqui nesta noite. Eles pulam, meus amigos, com a alegria de uma criança. São como pirralhos que experimentam pela primeira vez o sabor doce das bancas de sorvete da Rua de Cima, no Antigo Largo do Carmo.

A alegria é tão contagiante que até os argentinos, ainda cabisbaixos pela derrota, compreendem o furor pontepretano e reconhecem que o cálice fará morada mais justa no Moisés Lucareli do que na sua pequena fortaleza.

E já que falamos no Majestoso, quero fazer um apelo: que não seja erguido um museu para essa conquista – seria pequeno demais. Façamos um altar. Vamos todos mimar essa filha única, fusão perfeita de ouro e ferro, esse nobre metal que vem coroar a inefável fé de cada torcedor da Ponte Preta.

E peço também que não haja um caminhão de bombeiro esperando os nossos heróis, mas que venham todas as viaturas da cidade. E que venha também toda a polícia, as forças armadas inteiras, e quem mais puder. E que tragam, todos, seus uniformes, e que batam continência quando os heróis passarem, e que preparem uma salva de tiros com honra e galhardia, porque diante de vós passará um estupendo portento. Vamos todos ocupar a Santos Dumont para testemunhar o feito homérico, meus amigos. Porque essa torcida, que sempre acreditou, será tomada por um sentimento de incredulidade quando a taça passar. Será preciso vê-la de perto, sentir o cheiro do ouro para saber, enfim, que o milagre é consumado.

E aproveitemos para estabelecer um longo e merecido feriado neste 11 de dezembro. Porque não houve feito maior nesse dia do que este.

Ironicamente, meus amigos, no dia em que a Argentina comemora o nascimento de Carlos Gardel, é o Brasil, trajando na camisa branca uma faixa preta de campeão, quem acaba de escolher o passo do tango.

Anúncios
Padrão

É COM UM CHAPÉU QUE SE DERRUBA A COROA DE QUEM SE DIZ REI

Image

Nós, mortais, cismamos em estabelecer hierarquias no Futebol. Temos uma sede tenebrosa de alinhar nossas taças e medalhas pelo chão e estabelecer um vencedor. E assim, sem conhecer a piedade, elegemos também inúmeros perdedores.

Nesse injusto e artificial rol do prestígio, Vélez Sarsfield e Ponte Preta ocupam posições distintas: a camisa argentina, que já vestiu Chilavert e Simeone, beira o topo, enquanto o inconfundível colete tarjado repousa longe dali, no limbo dessa régua teimosa.

Na aristocracia dos críticos da bola, meus amigos, o Vélez é rei enquanto a Ponte não passa pelo cordão dos vassalos.

Mas o Futebol, esse intrépido casmurro, dá de ombros para essas hierarquias forjadas que nosso preconceito vive de escrever. E quando negros e brancos, ricos e pobres, fortes e fracos pisam na grama, são achatados a uma inexorável igualdade – todos são submissos aos caprichos da bola.

E foi esse mandamento do esporte bretão que permitiu que a benevolência do Futebol sorrisse para a Ponte Preta hoje, no jogo de volta das quartas-de-final da Sula, na Argentina.

O onze campineiro, por viver a tormenta da zona do rebaixamento no Brasileirão, viajou sob os holofotes da desconfiança para medir forças com o Vélez. Mas eis que essa mesma dúvida, esse jocoso sorrir irônico do adversário, dos brasileiros até, serviu como afrodisíaco infalível para os pontepretanos.

E Elias, o camisa 10, começou a rasgar o código da boa conduta dos visitantes logo no começo do segundo tempo, calando a pequena fortaleza azul com um gol sagaz, desses que povoam os manuais de contra-ataques.

Os minutos que se seguiram, com os hermanos investindo pesado para virar a partida, resultaram num combinado de sobressaltos e taquicardias que tomaram de assalto Campinas inteira.

E aos 40 e tantos minutos, quando o árbitro já fitava mais o crônometro do que o próprio embate, Fernando Bob fez surgir o golpe de misericórdia, que tiraria a aflição dos moribundos argentinos e faria eclodir no interior paulista uma festa sem precedentes, desvairada com toda a justificativa. Foi um gol de Canal 100, meus amigos. Um retumbante chapéu no goleiro. Um tento daqueles que teimamos em guardar para sempre, que insistimos em mostrar todos os dias para os nossos filhos a fim de justificar uma passagem honrosa pela vida.

Mas o gol não foi apenas bonito – foi, antes de tudo, envolto em alegoria. Porque quando Sebastián Sosa, o arqueiro argentino, tocou a bola com a cabeça no meio da sua trajetória ascendente, ele impediu o tento de ser plasticamente perfeito. Mas, sem querer, fez do gol algo transcendente, maior que a beleza em seu estado mais bruto. Ali, o ardil chapéu de Fernando Bob derrubou vertiginosamente a coroa que ocupava a cabeça do goleiro.

Com um golpe de chuteiras, um herói brasileiro pôs no chão a aviltante majestade que rege a petulância argentina.

Padrão