O INIMIGO QUE CONSOLA

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No Futebol, como na vida, a dor é mais frequente que o riso.

Vejamos, como caráter de amostra, o Campeonato Brasileiro: todo ano, há um único e imaculado campeão enquanto existem outros quatros clubes sendo empurrados para o Hades.

É a implacável matemática da bola: para cada estádio em transe ao cabo de uma temporada, amigos, há outros quatro campos em aflição.

E há um agravante: este choro doído que ocupa 1/5 das arquibancadas de elite do Brasil não esmorece tão cedo, como as derrotas. O rebaixamento é uma desonra quase definitiva, que marca a pele com ferrete em brasa como se fôssemos não torcedores, mas animais de carga.

A queda, meus amigos, é o perfeito avesso do título. Um achincalhar aviltante e infinito, que açoita os torcedores muito mais que os jogadores em campo, já que estes são alados e têm a carta de alforria para assinar com clubes em situações mais aprazíveis. Mas o torcedor, o pobre e desesperado torcedor, está amarrado ao clube, embriagado de um inefável amor. Ele nada pode fazer. Aliás, o que se podia fazer o infeliz já fez: empenhou o seu pulmão, berrou desesperado, orou em segredo, comprou camisas e vendeu a alma. A ele, nada mais resta senão sofrer a humilhação de padecer no subsolo do Futebol.

Mas há um alento, meus amigos. Nada que acabe com a dor, mas algo que simplesmente conforta: ver cair também o seu maior rival, ali, juntinho, no mesmo ano, na mesma rodada, no mesmo suspiro.

Foi esse abrandamento de pena que os torcedores de Vasco da Gama e Fluminense experimentaram hoje. Foi uma queda em conluio, como descer até o inferno e perceber que lá também está o seu ferrenho desigual, o maior dos seus ofendedores.

Nada que suprima o sofrimento – é apenas algo que aplaca o desespero.

E assim, amigos, na Série B do Campeonato Brasileiro de 2014, vascaínos e tricolores experimentarão, invariavelmente, os sórdidos risos de sarcasmo de flamenguistas e botafoguenses, as gozações implacáveis dos rivais Brasil afora, a dor ferrenha de usar o magistral Maracanã numa rodada para, na outra, cair nos buracos do Romeirão.

Mas uma coisa, meus amigos, nenhum deles vai ter de aturar: o jocoso gargalhar um do outro.

Serão comparsas por uma vez na vida.

E assim, marcharão juntos, cruzmaltinos e tricolores, corporificando numa romaria fúnebre o sepultamento da alegria.

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O BERRO ESCRITO NUM CARTAZ

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É dentro das quatro paredes de cal de um campo que são contados os maiores feitos do Futebol. Mas é perto dali, nas arquibancadas que acomodam o infatigável povão, que acontece o transcendental.

E foi isso, meus amigos, o que nós vivemos hoje no Maracanã.

Vamos ao contexto.

O Fluminense recebia o São Paulo à procura de um sopro de fôlego na disputa contra a Série B, travada num improvável clássico contra o Vasco da Gama.

Logo na aurora do jogo, uma menina, que não deve ter vivido ainda 8 anos, conquistava a atenção dos populares: ela usava um cartaz feito à mão, com letras inegavelmente infantis, para levar um apelo ao arqueiro tricolor: “Diego Cavalieri, seja meu Papai Noel. Me dá sua camisa”.

A poucos metros dali, no campo, o São Paulo, indiferente a tudo, abria o placar. E o desespero que recaía sobre todo pó de arroz no Maracanã também visitava a daminha. Acontece que a aflição dela era diferente, amigos. Dentro daquele coraçãozinho frágil cabia apenas o sobressalto breve, inocente, de quem sabe que a virada chega logo, como chegarão os trens da Linha 4.

E como toda virada começa com um empate, Nelson Rodrigues trouxe seu Sobrenatural de Almeida para marcar a favor do tricolor, depois de a bola ricochetear duas vezes na trave paulista.

Mas o tempo corria irremediavelmente e o empate não era o bastante. O jogo já conhecia seu segundo tempo e o Fluminense não varava o cerco armado por Muricy Ramalho. A essa altura, com o ponteiro maior perto da conhecer a última volta, o Maracanã era soluços de desespero e angústia. Mas não ela, meus amigos. Não a nossa torcedora. Ela era dócil como nenhum fã sabe ser. Ela só esperava. Ela e seu indefectível cartaz.

Até que o acaso, cansado de segurar a euforia carioca, deu aval e permitiu que Gum cabeceasse contra o gol de Denis e corrompesse a arquibancada com êxtase. Nascia o gol da virada, da vitória certeira, da possibilidade real de permanecer na Série A para o ano da graça da Copa da Mundo de 2014.

Nesse momento, quem olhava para a torcida via sorrisos, via bandeiras, via lágrimas. Mas só quem olhava para a menina via a alma exposta do Futebol. Só aquela criança conduzia a graça suprema de saber esperar.

Em vez de pulos e danças, a menina mantinha o cartaz elevado como fosse a última muralha da sua fortaleza, esperando que, entre tantos abraços acalorados dos companheiros, entre tantos microfones desesperados, entre todos os flashes que cegam, Cavalieri olhasse exatamente para ela.

E ele olhou, meus amigos. Ele olhou.

E veio em sua direção para, sem demora, puxar aquela donzela para dentro do campo, como que querendo que ela experimentasse o terreno sagrado do nosso Futebol. Mas engana-se quem pensa que a menina tocou a grama com seus pés – ela é imaculada demais para isso. O guardião do Flu a manteve o tempo todo apertada contra seu próprio peito ofegante, num abraço confidente, com mais vida do que qualquer outro cumprimento trocado entre os 11 vencedores do embate.

A menina foi arrebatada, caros leitores. O retrato mais apurado da inocência experimentava exatamente os mesmos braços que vivem de guardar a cidadela do Fluminense.

Ela fechou os olhos como se caísse no colo do pai depois de uma demorada colônia de férias no Irajá.

E por um instante, o estádio inteiro se esqueceu da posição do escrete na tabela, dos problemas que o clube coleciona com o patrocinador, da volta de Dario Conca – o Maracanã estava todo ali, no meio daquele abraço.

O arqueiro tricolor, então, devolveu a garota à arquibancada, já com a camisa 12 nas mãos, virou as costas e marchou para o vestiário, pensando provavelmente que o futebol não é aquilo que ele faz dentro do campo, mas aquilo que o povo vive fora dele.

E eu gosto de imaginar que a nossa heroína anônima marchou para o outro lado com seu pai, agarrada àquela camisa como torcedores se agarram à matemática para continuar sonhando.

Nenhum outro arqueiro vai conseguir proporcionar a qualquer torcedor a mesma euforia. Porque o que ela acabou de ganhar, meus amigos, não foi uma camisa – foi o maior troféu do Futebol.

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