A REENCARNAÇÃO DA VELHA BAIXADA

velha_baixada_mais_votada

Parem as máquinas, meus amigos.

Cessem o que quer que estejam fazendo, porque trago uma notícia lúgubre para compartilhar com os senhores: fomos todos irremediavelmente enganados pelo ardiloso Clube Atlético Paranaense.

Sim, meus caros, somos frágeis vítimas de uma contravenção perfeitamente legal.

Falo da escolha do estádio temporário em que o Atlético escolheu mandar seus jogos enquanto sua Arena recebe um banho de prata para a Copa do Mundo de 2014.

Enquanto todos os clubes que cederam suas praças à Fifa e seus confrades indicaram, inocentes feito crianças, campos neutros para mandar seus jogos, o Furacão escolheu a perniciosa reencarnação daquele que foi o seu estádio por toda a vida: a inóspita Velha Baixada.

Sim, meus amigos: o Estádio Durival Britto e Silva, alcunhado de Vila Capanema, é o parasita ideal para receber uma alma antiga, que o futebol brasileiro pensava estar soterrada pela memória pobre de todos nós.

Sobre aquele campo cansado do Paraná Clube paira a pesada atmosfera do antigo Caldeirão.

Olhem bem. Mirem com cuidado, meus amigos. Está tudo lá.

Os alambrados frágeis são os mesmos que um dia cederam ao peso da comemoração incontida de Oséas e Paulo Rink, depois de um Atletiba incontestável em 1995. As arquibancadas frias, tal qual as tubulares de antigamente, oscilam ao sabor dos cânticos fervorosos da massa atleticana. A proximidade entre a torcida inflamada e os jogadores em campo é a mesma, como que medida com régua, oprimindo especialmente os laterais e pontas adversários, que jogam sob o medo terrível de ter suas camisas arrancadas pelos arquibaldos desse opressivo campo de batalha.

Tudo ali lembra à perfeição o saudoso Joaquim Américo.

E assim, numa manobra oculta, o Atlético-PR tem jogado confortavelmente em casa, empurrado pelo pulso ostensivo de um estádio que jamais vai morrer, mesmo tendo sido posto ao chão 15 anos atrás. E o mais engenhoso capítulo do golpe dos sulistas é este: deixar o país todo pensar que o time está saudoso de sua cancha própria. “Vamos pegar o Atlético Paranaense em campo neutro. Dá pra ganhar”, pensam os desavisados adversários, enquanto a metade vermelha de Curitiba não desmente, apenas sorri afavelmente e concorda com a cabeça, num gesto mais falso que a notícia de um novo Pelé.

Com essa reencarnação vil – que já é terrível no longo Campeonato Brasileiro e torna-se implacável na curtíssima Copa do Brasil, onde jogar numa casa despótica beneficia largamente o mandante – o Furacão vem prevalecendo arbitrariamente sobre incontáveis times.

Resta, agora, passar por um último adversário para, enfim, arrastar para o Joaquim Américo a taça inédita da Copa do Brasil.

Acontece que o combatente de agora não está carente de um estádio, como o Palmeiras das oitavas ou o Internacional das quartas. Antes, está vivendo os primeiros e melhores dias do reencontro com a velha casa, que calha ser o mais místico teatro do Futebol. Um hostil terreno com quem o mandante do derradeiro jogo mantém uma tórrida relação de paixão e êxtase.

Nesse duelo emblemático de rubro-negros, o Flamengo – de Jayme e não de Mano – tem a árdua tarefa de sair incólume do alçapão atleticano.

E no jogo de volta, o Maracanã ocupa o papel de última fortaleza – é o único contraveneno capaz de frear a turbulência que a reencarnação da Velha Baixada faz ressoar pelo país.

Foto: Fernando Freire/Globoesporte.com

Padrão

O CLUBE QUE VESTE VERDE-BANDEIRA

Image

Há já muito tempo que não se respeita o futebol no Brasil. Num pacto silencioso, todos nós já concordamos com isso. Demos aval a esse escárnio quando passamos a tolerar as infames dancinhas dos artilheiros, as chuteiras coloridas dos boleiros, a ganância desmedida dos cartolas.

Mas hoje a altiveza ultrapassou a já recuada barreira que nós, meros torcedores, montamos. Foi quando o onze do Grêmio de Foot-Ball Porto Alegrense ignorou sumariamente a bandeira do Brasil e se eximiu da execução do nosso hino nacional no Serra Dourada.

Se perguntarmos ao comandante gremista o que motivou tamanho atraso na subida do túnel, ele deve se esquivar culpando uma recomendação técnica mais extensa ou os bravejos de uma palestra motivacional mais atrasada que um zagueiro fora de forma. Mas nada disso justifica a descortesia dele para com o Ouvirundum.

Mas eis que nós, meros espectadores de todo esse circo, temos do nosso lado aquele vil déspota que só dá as caras quando convém – a sorte. Com sussurros ardis, ela convenceu o Futebol, o súdito-mor da nossa República, a cobrar alto preço do esquadrão gaúcho.

Hoje, assim como a bola, a bandeira também resolveu punir.

E um crime de lesa-pátria, como este, pede um herói ufanista, como Walter, o circunspecto esmeraldino. Foi ele o algoz que corrigiu em rede nacional a indiferença de Renato e seus subordinados. Com dois tentos memoráveis, o craque que desafia a balança mostrou o que acontece quando se desrespeita o hino do Brasil diante de um clube que veste verde-bandeira.

Padrão