O CAMPEÃO AÇOITADO

Image

Ao longo dos muitos anos de Futebol, as divindades que escolhem quem ganha e quem perde foram desenvolvendo uma avassaladora simpatia por alguns clubes, cobrindo suas trajetórias de voltas olímpicas e salpicando seus escudos de estrelas.

Na mesma medida, com inapelável força contrária, essas mesmas autoridades divinas foram criando uma terrível e sonora antipatia por outros times, que acabaram expatriados a um Hades onde o sorriso é punido com açoites e a fuga é um mero delírio.

Foi aqui, desse lado do campo onde a grama não cresce, que viveu por muitos anos o Atlético Mineiro. Foram dias da mais absoluta desgraça futebolística: rebaixamento, goleadas vexatórias sofridas para o maior dos rivais e a dura vida de mero coadjuvante. Mas mais do que prover uma seca improvável na Cidade do Galo, os roteiristas do Futebol ainda deram linha aos sonhos do Cruzeiro, escrevendo uma das mais injustas e desequilibradas brigas do ludopédio nacional.

A Raposa reinou absoluta em Minas Gerais – e, por vezes, no Brasil – enquanto o Galo, feito galinha, se acostumou com a vista do chão, ciscando de crista baixa até em disputas de futebol de botão.

Mas até as maiores desgraças encontram parede forte na mesmice. E de tão cansados com o filme que escreviam, os roteiristas da bola decidiram mudar o disco.

Aquele mesmo gargalhar genuíno que mora nos lábios dos campeões estava fadado a voltar às bocas dos alvinegros.

E o primeiro passo do Atlético Mineiro rumo à fábula dos grandes feitos começou a ser dado quando o engenhoso Alexandre Kalil sacou Ronaldinho Gaúcho das asas do urubu.

Bastou o craque dos dentes tortos e de espírito errante vestir a camisa que tem as cores de um filme de Godard para os dados da sorte, que sempre caíram com a cara para o chão, sofrerem um inexorável ipon – o acaso havia aceitado a vitória do Galo.

Assim, capitaneado por Cuca – um técnico que até então, é importante lembrar, tinha menos estrela que o brasão do Botafogo – o Galo foi desbravar a América. E por toda a primeira fase da competição continental, sobrou em campo.

Mas bastou as figuras que determinam o destino perceberem que Ronaldinho se divertia em campo, punindo a todos com os chicotes do seu sorriso, que eles logos cravejaram de espinhos o caminho atleticano: das oitavas em diante a bonança deu lugar à tormenta. E até os mais indiferentes torcedores passaram a dar cabo às unhas, no desespero que faz a boca morder o que está mais à mão.

O sofrimento, esse moto-contínuo na vida do atleticano, encontrou ápice nas quartas-de-final, contra o Tijuana, quando Leonardo Silva golpeou Moreno na área. O árbitro – que feito Nelson Rodrigues tem um fraco por tragédias – apontou para a marca da cal.

Eram 46’ do segundo tempo e o gol tiraria o Galo do certame.

Acontece que o corvo da sorte repousava sobre os ombros de Victor. E, na hora da cobrança, mesmo tendo saltado a esmo, o arqueiro esqueceu de levar consigo o pé esquerdo, que brecou o couro no meio do gol.

Num êxtase uníssono, o Atlético comprava uma vaga na semifinal da maior competição do continente. E canonizava Victor como o santo-mor do Estados das Minas Gerais.

Os últimos quatro jogos dessa odisseia não seriam menos sofridos. Mas vou poupar você, leitor, dos pormenores. Todos sabemos como as divindades execraram o torcedor do Galo antes de entregar aquilo que estava combinado com o acaso.

O fato é que sob gritos de pavor e incontáveis sobressaltos, a taça de Campeão das Américas veio fazer temporada no Brasil.

Acontece que a flamejante zombaria de quem controla a sorte ainda estava por vir. Os roteiristas do esporte bretão esperaram a massa atleticana virar as costas, estudando distraidamente os melhores pacotes turísticos para o Marrocos, para beliscar seus calcanhares e entregar de mão beijada, sem a menor cerimônia, uma taça de Campeão Brasileiro para o Cruzeiro.

Ainda faltam 7 rodadas, é verdade. Mas não se iluda, atleticano: faz parte do plano vil dos controladores do Futebol flagelar o peito daqueles que se dobram diante desse esporte.

Os escritores da bola querem que, lá na frente, o torcedor do Galo olhe para trás e lembre de 2013 com incomensurável carinho. Mas não sem antes pensar que do outro lado da cidade também sorri satisfeito um cruzeirense.

Essa, meus amigos, é a cruel ironia dos roteiristas do Futebol.

Foto: turmadochapeu.com.br

Padrão