O CASEIRO DO MARACANÃ

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Vamos a uma verdade inexorável: não há um só campo de Futebol igual ao outro.

Não digo os estádios, essas arenas repletas de funções, mas falo dos campos. Daqueles tapetes de grama pintados com cal e furados por duas traves brancas nas extremidades.

Eles são diferentes entre si, como somos todos nós.

Mas o que isso tem de importante? Ora, tudo. Tudo e mais um pouco. Numa peleja ferrenha, conhecer cada palmo do campo faz uma atroz diferença.

E nós, brasileiros, trazemos esta notável vantagem para a Copa do Mundo: todo o nosso escrete conhece estes palcos. E, mais do que isso, temos, dentro do nosso onze, um filho legítimo, gerado no ventre, dos dois campos mais importantes dessa jornada pelo hexacampeonato. Falo de Fred.

Se não pelo faro apurado de gols ou pelos cachos que adornam a cabeça do fura-redes tupiniquim, entreguemos o colete de titular ao moço de Teófilo Otoni pelo profundo conhecimento que tem do Mineirão, palco das oitavas e da semi, e do Maracanã, nobre cenário da finalíssima. Porque não há, em toda a vastidão desta terra alcançada por Pedro Álvares Cabral, um só cidadão que conheça melhor do que ele os caprichos desses dois gramados.

Em 48 embates no Governador Magalhães Pinto, Fred anotou assustadores 42 gols. Depois, no Estádio Mário Filho, o teatro maior do Futebol, o dianteiro já marcou 29 vezes em 43 embates.

Os números provam: Fred é o mais contumaz frequentador desse solo. Ele conhece a posição das balizas, sabe onde o sol aponta no começo de jogo e onde ele dorme quando o juiz trila o apito pela última vez.

Podem vendá-lo. Fred saberá, como sabe os riscos da sua própria mão, para que lado chutar o couro. Só pelo sopro que vem das arquibancadas, pelo hálito quente da multidão que berra atrás dos gols, ele saberá para onde mandar a bola.

Enquanto Balotellis, Messis e Podolskis estarão ainda engatinhando pelos nossos campos, procurando entender como a charanga toca por aqui, Fred estará em casa.

Ele será o zelador do Mineirão, o caseiro do Maracanã. Será o pastor dos campos mais nobres do país. E nós seremos suas 190 milhões de ovelhas.

 

Dados: Site Goleada Info

Foto: Wander Roberto/VIPCOMM

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O INIMIGO QUE CONSOLA

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No Futebol, como na vida, a dor é mais frequente que o riso.

Vejamos, como caráter de amostra, o Campeonato Brasileiro: todo ano, há um único e imaculado campeão enquanto existem outros quatros clubes sendo empurrados para o Hades.

É a implacável matemática da bola: para cada estádio em transe ao cabo de uma temporada, amigos, há outros quatro campos em aflição.

E há um agravante: este choro doído que ocupa 1/5 das arquibancadas de elite do Brasil não esmorece tão cedo, como as derrotas. O rebaixamento é uma desonra quase definitiva, que marca a pele com ferrete em brasa como se fôssemos não torcedores, mas animais de carga.

A queda, meus amigos, é o perfeito avesso do título. Um achincalhar aviltante e infinito, que açoita os torcedores muito mais que os jogadores em campo, já que estes são alados e têm a carta de alforria para assinar com clubes em situações mais aprazíveis. Mas o torcedor, o pobre e desesperado torcedor, está amarrado ao clube, embriagado de um inefável amor. Ele nada pode fazer. Aliás, o que se podia fazer o infeliz já fez: empenhou o seu pulmão, berrou desesperado, orou em segredo, comprou camisas e vendeu a alma. A ele, nada mais resta senão sofrer a humilhação de padecer no subsolo do Futebol.

Mas há um alento, meus amigos. Nada que acabe com a dor, mas algo que simplesmente conforta: ver cair também o seu maior rival, ali, juntinho, no mesmo ano, na mesma rodada, no mesmo suspiro.

Foi esse abrandamento de pena que os torcedores de Vasco da Gama e Fluminense experimentaram hoje. Foi uma queda em conluio, como descer até o inferno e perceber que lá também está o seu ferrenho desigual, o maior dos seus ofendedores.

Nada que suprima o sofrimento – é apenas algo que aplaca o desespero.

E assim, amigos, na Série B do Campeonato Brasileiro de 2014, vascaínos e tricolores experimentarão, invariavelmente, os sórdidos risos de sarcasmo de flamenguistas e botafoguenses, as gozações implacáveis dos rivais Brasil afora, a dor ferrenha de usar o magistral Maracanã numa rodada para, na outra, cair nos buracos do Romeirão.

Mas uma coisa, meus amigos, nenhum deles vai ter de aturar: o jocoso gargalhar um do outro.

Serão comparsas por uma vez na vida.

E assim, marcharão juntos, cruzmaltinos e tricolores, corporificando numa romaria fúnebre o sepultamento da alegria.

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O MENGO, A MAGNÉTICA E O MARACANÃ

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O Maracanã e o Flamengo formam uma dupla lapidar, perfeita em cada um dos seus encontros. São como Pelé e Coutinho, siameses do balé do Futebol, que se complementam de uma forma que excede nosso parco entendimento.

Dentro daquele colossal campo de batalha, quando o rubro-negro joga, ninguém sabe ao certo o que é estádio e o que é torcida – tudo é uma só coisa, uma massa vibrante, carregada de vida e furor.

E ontem foi assim.

Por 90 minutos, o novo Maracanã se arrependeu de ter encolhido – 70 mil lugares foram pouco. Do lado de fora, os torcedores que não conseguiram entrar se acotovelavam à procura de um fiapo verde de campo – qualquer coisa que fosse já os permitira dizer, por toda a posteridade, “eu vi”. Com seus pavilhões ao sabor do vento e seus corpos suando nas camisas compradas às pressas no camelô a caminho do campo, os populares apertavam suas sôfregas orelhinhas contra o radinho de pilha, procurando entender o que acontecia do lado de dentro daquele gigante de concreto.

Para que se estabelecesse um pouco de justiça, devo dizer, era preciso que as autoridades abrissem os portões, liberassem as catracas e convidassem o povão ao deleite. Seria uma compensação quase justa dos mandatários da bola, que subiram o preço dos ingressos a absurdos R$ 250 e transformaram em festa de gala o carnaval mais popular do país.

Mas os gritos desesperados de quem estava do lado de fora, ao contrário do que se pode imaginar, não foram em vão. Ao contrário, foram sentidos lá dentro, pela multidão pagante, que, por isso, empenhava ainda mais seu pulmão a cada canto, como se cantasse também por quem estava nos entornos do estádio. E dentro das quatro paredes de cal, o escrete carioca também percebia a presença de todo o Rio de Janeiro ali – quem não tinha mais fôlego para continuar uma disputa física contra um Atlético-PR mais voraz, encontrava nos gritos do povão os músculos que as pernas pareciam ter perdido.

Jayme de Almeida, matreiro, desenhava um Flamengo inteligente e, aos poucos, preparava terreno para o tricampeonato. Era um homem do povo arquitetando uma solenidade alegórica para a sua própria gente, que ocupava as arquibancadas como numa celebração em família onde que todo mundo se sente um pouco em casa.

E assim, arrebatado pela magnética torcida, o Flamengo brecou o ímpeto dos atleticanos e encurralou o esquadrão visitante no campo de retaguarda, fazendo aquele antes devastador furacão perder força, descer à condição duma remansada frente fria e soprar não mais do que a brisa fraca que acomete a orla de Copacabana no fim de março.

O Maracanã estava reinaugurado, com galardão e honrarias, como rege a cartilha de um colosso que empresta o nome do Homero do futebol brasileiro, o jornalista Mário Filho.

Foto: noticiasfla.com.br

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O BERRO ESCRITO NUM CARTAZ

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É dentro das quatro paredes de cal de um campo que são contados os maiores feitos do Futebol. Mas é perto dali, nas arquibancadas que acomodam o infatigável povão, que acontece o transcendental.

E foi isso, meus amigos, o que nós vivemos hoje no Maracanã.

Vamos ao contexto.

O Fluminense recebia o São Paulo à procura de um sopro de fôlego na disputa contra a Série B, travada num improvável clássico contra o Vasco da Gama.

Logo na aurora do jogo, uma menina, que não deve ter vivido ainda 8 anos, conquistava a atenção dos populares: ela usava um cartaz feito à mão, com letras inegavelmente infantis, para levar um apelo ao arqueiro tricolor: “Diego Cavalieri, seja meu Papai Noel. Me dá sua camisa”.

A poucos metros dali, no campo, o São Paulo, indiferente a tudo, abria o placar. E o desespero que recaía sobre todo pó de arroz no Maracanã também visitava a daminha. Acontece que a aflição dela era diferente, amigos. Dentro daquele coraçãozinho frágil cabia apenas o sobressalto breve, inocente, de quem sabe que a virada chega logo, como chegarão os trens da Linha 4.

E como toda virada começa com um empate, Nelson Rodrigues trouxe seu Sobrenatural de Almeida para marcar a favor do tricolor, depois de a bola ricochetear duas vezes na trave paulista.

Mas o tempo corria irremediavelmente e o empate não era o bastante. O jogo já conhecia seu segundo tempo e o Fluminense não varava o cerco armado por Muricy Ramalho. A essa altura, com o ponteiro maior perto da conhecer a última volta, o Maracanã era soluços de desespero e angústia. Mas não ela, meus amigos. Não a nossa torcedora. Ela era dócil como nenhum fã sabe ser. Ela só esperava. Ela e seu indefectível cartaz.

Até que o acaso, cansado de segurar a euforia carioca, deu aval e permitiu que Gum cabeceasse contra o gol de Denis e corrompesse a arquibancada com êxtase. Nascia o gol da virada, da vitória certeira, da possibilidade real de permanecer na Série A para o ano da graça da Copa da Mundo de 2014.

Nesse momento, quem olhava para a torcida via sorrisos, via bandeiras, via lágrimas. Mas só quem olhava para a menina via a alma exposta do Futebol. Só aquela criança conduzia a graça suprema de saber esperar.

Em vez de pulos e danças, a menina mantinha o cartaz elevado como fosse a última muralha da sua fortaleza, esperando que, entre tantos abraços acalorados dos companheiros, entre tantos microfones desesperados, entre todos os flashes que cegam, Cavalieri olhasse exatamente para ela.

E ele olhou, meus amigos. Ele olhou.

E veio em sua direção para, sem demora, puxar aquela donzela para dentro do campo, como que querendo que ela experimentasse o terreno sagrado do nosso Futebol. Mas engana-se quem pensa que a menina tocou a grama com seus pés – ela é imaculada demais para isso. O guardião do Flu a manteve o tempo todo apertada contra seu próprio peito ofegante, num abraço confidente, com mais vida do que qualquer outro cumprimento trocado entre os 11 vencedores do embate.

A menina foi arrebatada, caros leitores. O retrato mais apurado da inocência experimentava exatamente os mesmos braços que vivem de guardar a cidadela do Fluminense.

Ela fechou os olhos como se caísse no colo do pai depois de uma demorada colônia de férias no Irajá.

E por um instante, o estádio inteiro se esqueceu da posição do escrete na tabela, dos problemas que o clube coleciona com o patrocinador, da volta de Dario Conca – o Maracanã estava todo ali, no meio daquele abraço.

O arqueiro tricolor, então, devolveu a garota à arquibancada, já com a camisa 12 nas mãos, virou as costas e marchou para o vestiário, pensando provavelmente que o futebol não é aquilo que ele faz dentro do campo, mas aquilo que o povo vive fora dele.

E eu gosto de imaginar que a nossa heroína anônima marchou para o outro lado com seu pai, agarrada àquela camisa como torcedores se agarram à matemática para continuar sonhando.

Nenhum outro arqueiro vai conseguir proporcionar a qualquer torcedor a mesma euforia. Porque o que ela acabou de ganhar, meus amigos, não foi uma camisa – foi o maior troféu do Futebol.

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A REENCARNAÇÃO DA VELHA BAIXADA

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Parem as máquinas, meus amigos.

Cessem o que quer que estejam fazendo, porque trago uma notícia lúgubre para compartilhar com os senhores: fomos todos irremediavelmente enganados pelo ardiloso Clube Atlético Paranaense.

Sim, meus caros, somos frágeis vítimas de uma contravenção perfeitamente legal.

Falo da escolha do estádio temporário em que o Atlético escolheu mandar seus jogos enquanto sua Arena recebe um banho de prata para a Copa do Mundo de 2014.

Enquanto todos os clubes que cederam suas praças à Fifa e seus confrades indicaram, inocentes feito crianças, campos neutros para mandar seus jogos, o Furacão escolheu a perniciosa reencarnação daquele que foi o seu estádio por toda a vida: a inóspita Velha Baixada.

Sim, meus amigos: o Estádio Durival Britto e Silva, alcunhado de Vila Capanema, é o parasita ideal para receber uma alma antiga, que o futebol brasileiro pensava estar soterrada pela memória pobre de todos nós.

Sobre aquele campo cansado do Paraná Clube paira a pesada atmosfera do antigo Caldeirão.

Olhem bem. Mirem com cuidado, meus amigos. Está tudo lá.

Os alambrados frágeis são os mesmos que um dia cederam ao peso da comemoração incontida de Oséas e Paulo Rink, depois de um Atletiba incontestável em 1995. As arquibancadas frias, tal qual as tubulares de antigamente, oscilam ao sabor dos cânticos fervorosos da massa atleticana. A proximidade entre a torcida inflamada e os jogadores em campo é a mesma, como que medida com régua, oprimindo especialmente os laterais e pontas adversários, que jogam sob o medo terrível de ter suas camisas arrancadas pelos arquibaldos desse opressivo campo de batalha.

Tudo ali lembra à perfeição o saudoso Joaquim Américo.

E assim, numa manobra oculta, o Atlético-PR tem jogado confortavelmente em casa, empurrado pelo pulso ostensivo de um estádio que jamais vai morrer, mesmo tendo sido posto ao chão 15 anos atrás. E o mais engenhoso capítulo do golpe dos sulistas é este: deixar o país todo pensar que o time está saudoso de sua cancha própria. “Vamos pegar o Atlético Paranaense em campo neutro. Dá pra ganhar”, pensam os desavisados adversários, enquanto a metade vermelha de Curitiba não desmente, apenas sorri afavelmente e concorda com a cabeça, num gesto mais falso que a notícia de um novo Pelé.

Com essa reencarnação vil – que já é terrível no longo Campeonato Brasileiro e torna-se implacável na curtíssima Copa do Brasil, onde jogar numa casa despótica beneficia largamente o mandante – o Furacão vem prevalecendo arbitrariamente sobre incontáveis times.

Resta, agora, passar por um último adversário para, enfim, arrastar para o Joaquim Américo a taça inédita da Copa do Brasil.

Acontece que o combatente de agora não está carente de um estádio, como o Palmeiras das oitavas ou o Internacional das quartas. Antes, está vivendo os primeiros e melhores dias do reencontro com a velha casa, que calha ser o mais místico teatro do Futebol. Um hostil terreno com quem o mandante do derradeiro jogo mantém uma tórrida relação de paixão e êxtase.

Nesse duelo emblemático de rubro-negros, o Flamengo – de Jayme e não de Mano – tem a árdua tarefa de sair incólume do alçapão atleticano.

E no jogo de volta, o Maracanã ocupa o papel de última fortaleza – é o único contraveneno capaz de frear a turbulência que a reencarnação da Velha Baixada faz ressoar pelo país.

Foto: Fernando Freire/Globoesporte.com

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