AVENIDA PADRE CACIQUE, 891

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São só três palavras ao léu e outros três números à revelia.

Mas eles contêm um fragmento descomunal da história do Sport Club Internacional.

Eles formam o endereço do estádio Gigante da Beira-Rio. E trazem no seu nome a fusão perfeita entre a beleza do sacro e a garra audaz do maior dos índios – o apurado resumo do clube de Porto Alegre.

Hoje, este colosso do nosso Futebol, morada das glórias arrebatadoras de Falcão, abriu seus novos e imponentes portões para o povo.

E foi, meus amigos, uma experiência exuberante. O mais absoluto e espetacular delírio para a metade vermelha do Rio Grande do Sul, que se acotovelava diante do coliseu para desvendar cada pedaço da nova casa. Com os olhos turvos de uma comoção evidente, os arquibaldos suspendiam seus telefones celulares no ar à procura do melhor ângulo para registrar aquilo que amanhã, no trabalho, na escola, nas ruas e nos bares jamais caberá em palavras.

O estádio é um raro portento. Um essencial monumento ao Futebol.

E ainda assim, há nele algo mais relevante do que toda essa imponência arquitetônica: o endereço. Sim, porque o Beira-Rio permanece lá, à beira do rio Guaíba. Exatamente onde ele sempre esteve, exatamente onde ele ganhou a alcunha de Gigante.

Isso, amigos, significa muito mais do que nós podemos imaginar. Porque a mística implacável construída ao longo dos últimos quase 50 anos está mantida intacta.

A névoa terrível que sempre baixou no gramado, intimidando cada oponente, permanecerá lá, ainda mais espessa e inglória do que antes.

O espírito aguerrido de Dunga, que mergulhou num peixinho improvável contra o Palmeiras, em 1999, continuará lá. E a luz que desceu sobre Figueiroa no momento do gol antológico do Brasileiro de 1975 continuará fazendo morada ali.

E os adversários, já habituados ao alçapão vermelho, continuarão tremendo quando suas delegações despontarem pela avenida, revelando o Hades vermelho que vaza pela coroa branca que veste a mais nova fundação de Porto Alegre.

Os torcedores, que forjam a alma desse titânico campo, continuarão ocupando os mesmos lugares, entoando os mesmos gritos terríveis e inflamados de sempre, executando nas arquibancadas o sarau delirante de antigamente, com mil flâmulas vermelhas e dois mil cachecóis brancos a subir pelos ares.

E isso tudo, esse roteiro que segue os mesmos atos e cenas de décadas atrás, fará o escrete colorado se sentir inapelavelmente em casa. E não há nada mais cruel, meus amigos, do que jogar contra um onze que se sente assim, em casa. Porque ali, apoiado pela sua massa indelével, o time ganha uma coragem atroz, uma confiança medonha, e desce à pugna como uma criança cai na briga sabendo que na roda nervosa que pede por sangue está o irmão mais velho, impiedoso, pronto para ir à batalha ao menor sinal de socorro.

Essa acintosa convicção, que enverga até os mais confiantes adversários, estará sempre ao lado do Sport Club Internacional. O colorado jogará em casa, agora, mais do que nunca, posto que está de pé o colossal, o mastodôntico, o Gigante da Beira-Rio.

Foto: Jefferson Bernardes/ Agência Preview
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A REENCARNAÇÃO DA VELHA BAIXADA

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Parem as máquinas, meus amigos.

Cessem o que quer que estejam fazendo, porque trago uma notícia lúgubre para compartilhar com os senhores: fomos todos irremediavelmente enganados pelo ardiloso Clube Atlético Paranaense.

Sim, meus caros, somos frágeis vítimas de uma contravenção perfeitamente legal.

Falo da escolha do estádio temporário em que o Atlético escolheu mandar seus jogos enquanto sua Arena recebe um banho de prata para a Copa do Mundo de 2014.

Enquanto todos os clubes que cederam suas praças à Fifa e seus confrades indicaram, inocentes feito crianças, campos neutros para mandar seus jogos, o Furacão escolheu a perniciosa reencarnação daquele que foi o seu estádio por toda a vida: a inóspita Velha Baixada.

Sim, meus amigos: o Estádio Durival Britto e Silva, alcunhado de Vila Capanema, é o parasita ideal para receber uma alma antiga, que o futebol brasileiro pensava estar soterrada pela memória pobre de todos nós.

Sobre aquele campo cansado do Paraná Clube paira a pesada atmosfera do antigo Caldeirão.

Olhem bem. Mirem com cuidado, meus amigos. Está tudo lá.

Os alambrados frágeis são os mesmos que um dia cederam ao peso da comemoração incontida de Oséas e Paulo Rink, depois de um Atletiba incontestável em 1995. As arquibancadas frias, tal qual as tubulares de antigamente, oscilam ao sabor dos cânticos fervorosos da massa atleticana. A proximidade entre a torcida inflamada e os jogadores em campo é a mesma, como que medida com régua, oprimindo especialmente os laterais e pontas adversários, que jogam sob o medo terrível de ter suas camisas arrancadas pelos arquibaldos desse opressivo campo de batalha.

Tudo ali lembra à perfeição o saudoso Joaquim Américo.

E assim, numa manobra oculta, o Atlético-PR tem jogado confortavelmente em casa, empurrado pelo pulso ostensivo de um estádio que jamais vai morrer, mesmo tendo sido posto ao chão 15 anos atrás. E o mais engenhoso capítulo do golpe dos sulistas é este: deixar o país todo pensar que o time está saudoso de sua cancha própria. “Vamos pegar o Atlético Paranaense em campo neutro. Dá pra ganhar”, pensam os desavisados adversários, enquanto a metade vermelha de Curitiba não desmente, apenas sorri afavelmente e concorda com a cabeça, num gesto mais falso que a notícia de um novo Pelé.

Com essa reencarnação vil – que já é terrível no longo Campeonato Brasileiro e torna-se implacável na curtíssima Copa do Brasil, onde jogar numa casa despótica beneficia largamente o mandante – o Furacão vem prevalecendo arbitrariamente sobre incontáveis times.

Resta, agora, passar por um último adversário para, enfim, arrastar para o Joaquim Américo a taça inédita da Copa do Brasil.

Acontece que o combatente de agora não está carente de um estádio, como o Palmeiras das oitavas ou o Internacional das quartas. Antes, está vivendo os primeiros e melhores dias do reencontro com a velha casa, que calha ser o mais místico teatro do Futebol. Um hostil terreno com quem o mandante do derradeiro jogo mantém uma tórrida relação de paixão e êxtase.

Nesse duelo emblemático de rubro-negros, o Flamengo – de Jayme e não de Mano – tem a árdua tarefa de sair incólume do alçapão atleticano.

E no jogo de volta, o Maracanã ocupa o papel de última fortaleza – é o único contraveneno capaz de frear a turbulência que a reencarnação da Velha Baixada faz ressoar pelo país.

Foto: Fernando Freire/Globoesporte.com

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