O ZERO À ESQUERDA

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De fora da grande área, um mal intencionado jogador e candidato a algoz calibra um chute de longa distância. Ele fita o arqueiro, estuda as distâncias entre os postes e acende o pavio do canhão que leva na parte anterior da coxa. A bola explode na chuteira preta, ganha força e altura, assobiando feito um projétil coberto pelo couro bovino área adentro.

É quando, meus caros leitores, o arqueiro deve cumprir com sua obrigação moral e partir de encontro à bola. É sua função deixar o chão, saltar e ornamentar um mergulho cadente – com embarque e decolagem anunciados no momento previsto – e servir de parede, socando a cara da bola sem nenhuma censura.

E Rogério Ceni sabe disto. Desde a primeira aula de goleiros, lá em Pato Branco, ele sabe que ao arqueiro, mais que a qualquer um, interessa a pontualidade do salto – saber a hora de partir da grama é o que separa o êxtase e a lágrima.

Mas Rogério parece ter esquecido.

Justo ele, que aparentava cronometrar seus saltos e encontrar a bola sempre em momento oportuno, calando o grito da torcida contrária, parece ter perdido o tempo de sair de cena.

Rogério deveria ter parado antes.

Antes que os escândalos subissem o túnel do vestiário número 1 do Morumbi, antes que seus pênaltis encontrassem resistência nas mãos dos arqueiros, antes que seus mais de mil embates pelo São Paulo se tornassem um fardo pesado.

Agora, é tarde.

A condição semi-sagrada de mito, alcançada sob hemorragias de suor e lágrimas, foi posta – e exposta – em xeque.

Agora, a própria massa tricolor se demora em pensamentos. Perambula entre perdoar o gênio, atribuindo as desventuras em série ao azar, o corvo que visita o ombro dos fracos; ou cobrir de pedras e escárnio aquele que pode ser – fina ironia! – o protagonista de um rebaixamento antes impensado.

O tiro de fora da área, que o antagonista endereçou cheio de veneno, já varou toda a área, senhores.

E Rogério Ceni pulou tarde.

Aos 40 anos, é fácil dizer que ele não chega mais nessa bola.

O couro já sobrevoou a pequena área toda. E a essa altura, com a liberdade de um esquadrão capitaneado por Cruyff, já encontrou o barbante.

Rogério Ceni pula, agora, apenas para aparecer na foto. Seu salto, desesperado mais que desengonçado, tem a utilidade de um zero à esquerda – o mesmo zero, aliás, que o arqueiro carrega à esquerda do número 1 na sua camisa.

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