Homenagem à Ponte Preta

O ANÚNCIO QUE NUNCA FOI
Um dos patrocinadores da Ponte Preta procurou o Velho e encomendou uma crônica em homenagem ao título. Esse é o anúncio (sem assinatura, a pedido da agência) que sairia numa página inteira de Folha de S. Paulo, não fosse o Lanús. Trabalho dos excelentes Lipe Faria e Isis Ribeiro, diretor de arte e redatora da Dentsu Brasil.

Homenagem à Ponte Preta

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É COM UM CHAPÉU QUE SE DERRUBA A COROA DE QUEM SE DIZ REI

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Nós, mortais, cismamos em estabelecer hierarquias no Futebol. Temos uma sede tenebrosa de alinhar nossas taças e medalhas pelo chão e estabelecer um vencedor. E assim, sem conhecer a piedade, elegemos também inúmeros perdedores.

Nesse injusto e artificial rol do prestígio, Vélez Sarsfield e Ponte Preta ocupam posições distintas: a camisa argentina, que já vestiu Chilavert e Simeone, beira o topo, enquanto o inconfundível colete tarjado repousa longe dali, no limbo dessa régua teimosa.

Na aristocracia dos críticos da bola, meus amigos, o Vélez é rei enquanto a Ponte não passa pelo cordão dos vassalos.

Mas o Futebol, esse intrépido casmurro, dá de ombros para essas hierarquias forjadas que nosso preconceito vive de escrever. E quando negros e brancos, ricos e pobres, fortes e fracos pisam na grama, são achatados a uma inexorável igualdade – todos são submissos aos caprichos da bola.

E foi esse mandamento do esporte bretão que permitiu que a benevolência do Futebol sorrisse para a Ponte Preta hoje, no jogo de volta das quartas-de-final da Sula, na Argentina.

O onze campineiro, por viver a tormenta da zona do rebaixamento no Brasileirão, viajou sob os holofotes da desconfiança para medir forças com o Vélez. Mas eis que essa mesma dúvida, esse jocoso sorrir irônico do adversário, dos brasileiros até, serviu como afrodisíaco infalível para os pontepretanos.

E Elias, o camisa 10, começou a rasgar o código da boa conduta dos visitantes logo no começo do segundo tempo, calando a pequena fortaleza azul com um gol sagaz, desses que povoam os manuais de contra-ataques.

Os minutos que se seguiram, com os hermanos investindo pesado para virar a partida, resultaram num combinado de sobressaltos e taquicardias que tomaram de assalto Campinas inteira.

E aos 40 e tantos minutos, quando o árbitro já fitava mais o crônometro do que o próprio embate, Fernando Bob fez surgir o golpe de misericórdia, que tiraria a aflição dos moribundos argentinos e faria eclodir no interior paulista uma festa sem precedentes, desvairada com toda a justificativa. Foi um gol de Canal 100, meus amigos. Um retumbante chapéu no goleiro. Um tento daqueles que teimamos em guardar para sempre, que insistimos em mostrar todos os dias para os nossos filhos a fim de justificar uma passagem honrosa pela vida.

Mas o gol não foi apenas bonito – foi, antes de tudo, envolto em alegoria. Porque quando Sebastián Sosa, o arqueiro argentino, tocou a bola com a cabeça no meio da sua trajetória ascendente, ele impediu o tento de ser plasticamente perfeito. Mas, sem querer, fez do gol algo transcendente, maior que a beleza em seu estado mais bruto. Ali, o ardil chapéu de Fernando Bob derrubou vertiginosamente a coroa que ocupava a cabeça do goleiro.

Com um golpe de chuteiras, um herói brasileiro pôs no chão a aviltante majestade que rege a petulância argentina.

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