O MENGO, A MAGNÉTICA E O MARACANÃ

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O Maracanã e o Flamengo formam uma dupla lapidar, perfeita em cada um dos seus encontros. São como Pelé e Coutinho, siameses do balé do Futebol, que se complementam de uma forma que excede nosso parco entendimento.

Dentro daquele colossal campo de batalha, quando o rubro-negro joga, ninguém sabe ao certo o que é estádio e o que é torcida – tudo é uma só coisa, uma massa vibrante, carregada de vida e furor.

E ontem foi assim.

Por 90 minutos, o novo Maracanã se arrependeu de ter encolhido – 70 mil lugares foram pouco. Do lado de fora, os torcedores que não conseguiram entrar se acotovelavam à procura de um fiapo verde de campo – qualquer coisa que fosse já os permitira dizer, por toda a posteridade, “eu vi”. Com seus pavilhões ao sabor do vento e seus corpos suando nas camisas compradas às pressas no camelô a caminho do campo, os populares apertavam suas sôfregas orelhinhas contra o radinho de pilha, procurando entender o que acontecia do lado de dentro daquele gigante de concreto.

Para que se estabelecesse um pouco de justiça, devo dizer, era preciso que as autoridades abrissem os portões, liberassem as catracas e convidassem o povão ao deleite. Seria uma compensação quase justa dos mandatários da bola, que subiram o preço dos ingressos a absurdos R$ 250 e transformaram em festa de gala o carnaval mais popular do país.

Mas os gritos desesperados de quem estava do lado de fora, ao contrário do que se pode imaginar, não foram em vão. Ao contrário, foram sentidos lá dentro, pela multidão pagante, que, por isso, empenhava ainda mais seu pulmão a cada canto, como se cantasse também por quem estava nos entornos do estádio. E dentro das quatro paredes de cal, o escrete carioca também percebia a presença de todo o Rio de Janeiro ali – quem não tinha mais fôlego para continuar uma disputa física contra um Atlético-PR mais voraz, encontrava nos gritos do povão os músculos que as pernas pareciam ter perdido.

Jayme de Almeida, matreiro, desenhava um Flamengo inteligente e, aos poucos, preparava terreno para o tricampeonato. Era um homem do povo arquitetando uma solenidade alegórica para a sua própria gente, que ocupava as arquibancadas como numa celebração em família onde que todo mundo se sente um pouco em casa.

E assim, arrebatado pela magnética torcida, o Flamengo brecou o ímpeto dos atleticanos e encurralou o esquadrão visitante no campo de retaguarda, fazendo aquele antes devastador furacão perder força, descer à condição duma remansada frente fria e soprar não mais do que a brisa fraca que acomete a orla de Copacabana no fim de março.

O Maracanã estava reinaugurado, com galardão e honrarias, como rege a cartilha de um colosso que empresta o nome do Homero do futebol brasileiro, o jornalista Mário Filho.

Foto: noticiasfla.com.br

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HOMEM NA MACA

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Jaírton Nique é uma dessas figuras anônimas do futebol. Um sujeito que não se sabe ao certo de onde vem e muito menos para onde vai. Mas o fato é que esse correto irmão, que logo será esquecido, ontem lembrou o país inteiro do valor que tem o futebol.

Ontem era dia de Coritiba vs Vasco. Era também Dia dos Pais. E para celebrar o domingo, a esposa e a filha do nosso efêmero herói o presentearam com uma entrada para o jogo que reviveria a final da Copa do Brasil de 2011. Mesmo deitado numa cama de hospital, com severas restrições médicas, Jaírton, que vive em Guaratuba, no litoral paranaense, desafiou o próprio quadro clínico para subir a serra das araucárias e percorrer mais de 130 quilômetros rumo ao Alto da Glória – o time do seu coração ia jogar.

Assim, amarrado àquele leito magro, Jaírton entrou no estádio Major Antônio Couto Pereira momentos antes do início do embate. E os torcedores que o seguiram, por certo, sentiram estremecer o seu amor pelo clube. Até o mais fervoroso coxa-branca questionou – será que eu viria?

Mas o fato é que ele veio. E logo aos 4 minutos de jogo, enquanto ainda procurava ajeitar melhor aqueles travesseiros baixos de hospital, ele e os pouco mais de 20 mil coritibanos que ocupavam o concreto gelado do Alto da Glória foram operados sem anestesia – Pedro Ken, que outrora foi um piá do Couto, bateu com força no couro e rompeu a segura muralha de Vanderlei.

O Vasco da Gama estava na frente.

E foi assim o jogo todo, até o último apito de Leandro Vuaden. Foi uma vitória maiúscula do esquadrão vascaíno.

Mas ontem não foi o time de Juninho Pernambucano que venceu – foi o futebol. Foi a torcida brasileira. Ironicamente, exatamente quando ela mais sofria em silêncio, se vendo obrigada a esvaziar as novas super-arenas por não aguentar o pesado ritmo imposto pela ganância desmedida dos mandatários da bola.

Ontem, os nossos 190 milhões de súditos da bola puderam, enfim, acreditar num sopro de inocência.

Ainda existe amor no futebol.

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