O HERÓI ANTI-HERÓI

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Nada no futebol é mais vil do que permitir, sem o menor sinal de resistência, um gol do oponente. Encurtar o caminho até as traves que se jurou defender é a maior desonra prevista no já combalido código de ética e moral do Futebol.

Ainda assim, peço a permissão dos senhores para defender tamanho crime – há momentos em que até o antijogo deve ser praticado pela beleza sacrossanta do esporte bretão.

Assim, chamo para o banco dos réus o arqueiro do Bahia, Marcelo Lomba. Eis que o maior vilão dos campos brasileiros neste domingo foi exatamente o homem que cumpriu com seu dever de modo digno.

Era ainda cedo – 10 minutos da primeira metade do dérbi entre Bahia e Vasco da Gama – e Dakson, meia-cancha cruzmaltino, conduzia a bola dentro do globo central, no meio de campo, sem tórridas intenções, quando flagrou Lomba passeando pela marca da cal, assobiando com as mãos para trás, distante uns 11 metros do retângulo branco que deveria guardar.

Sem pestanejar, o camisa 87 do Vasco calçou a bola por baixo e, num soco seco, endereçou seu pombo para a meta baiana. Ao se dar conta do golpe, percebendo que a bola ganhava altura e percorria terreno numa velocidade de cruzeiro, Marcelo Lomba decidiu não pensar no malefício que iria cometer contra a plástica do Futebol: deu largos passos em marcha à ré e saltou de encontro ao couro.

A bola viajara 50 metros numa parábola mirabolante à toa. Estava rasgada ali, sem a menor cerimônia, a tela em que Dakson resolvera pintar um quadro que ganharia exposição no acervo fixo do Louvre.

Podia-se ouvir de longe o coro uníssono que ecoava da Fonte Nova. Era um grito de êxtase, da mais irradiante alegria – estava mantido intacto o placar.

Mas era também um grito de pavor e desespero. A massa tricolor testemunhava o repentino aborto de um milagre – desfazia-se, ali mesmo, diante de seus próprios olhos, o gol que Pelé não fez. Naquele instante, a Bahia toda chorava o crime hediondo cometido por Marcelo Lomba na Ladeira Fonte das Pedras.

Indiferente a tudo, este facínora de luvas brancas se levantou da grama, sacudiu o calção e pôs-se a esperar a cobrança do escanteio. Trazia no rosto a expressão indiferente, de quem acaba de desmanchar uma jogada qualquer – era como se ele tivesse ido buscar um cabeceio tortuoso do seu próprio beque.

E assim, sem perceber o mal que cometeu contra o Futebol, o sicário da camisa 1 do Tricolor de Aço entra hoje para o rigoroso clube daqueles que, mesmo sendo geniais, acabaram deixando cicatrizes profundas no Futebol.

Banks lhe dá boas vindas.

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HOMEM NA MACA

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Jaírton Nique é uma dessas figuras anônimas do futebol. Um sujeito que não se sabe ao certo de onde vem e muito menos para onde vai. Mas o fato é que esse correto irmão, que logo será esquecido, ontem lembrou o país inteiro do valor que tem o futebol.

Ontem era dia de Coritiba vs Vasco. Era também Dia dos Pais. E para celebrar o domingo, a esposa e a filha do nosso efêmero herói o presentearam com uma entrada para o jogo que reviveria a final da Copa do Brasil de 2011. Mesmo deitado numa cama de hospital, com severas restrições médicas, Jaírton, que vive em Guaratuba, no litoral paranaense, desafiou o próprio quadro clínico para subir a serra das araucárias e percorrer mais de 130 quilômetros rumo ao Alto da Glória – o time do seu coração ia jogar.

Assim, amarrado àquele leito magro, Jaírton entrou no estádio Major Antônio Couto Pereira momentos antes do início do embate. E os torcedores que o seguiram, por certo, sentiram estremecer o seu amor pelo clube. Até o mais fervoroso coxa-branca questionou – será que eu viria?

Mas o fato é que ele veio. E logo aos 4 minutos de jogo, enquanto ainda procurava ajeitar melhor aqueles travesseiros baixos de hospital, ele e os pouco mais de 20 mil coritibanos que ocupavam o concreto gelado do Alto da Glória foram operados sem anestesia – Pedro Ken, que outrora foi um piá do Couto, bateu com força no couro e rompeu a segura muralha de Vanderlei.

O Vasco da Gama estava na frente.

E foi assim o jogo todo, até o último apito de Leandro Vuaden. Foi uma vitória maiúscula do esquadrão vascaíno.

Mas ontem não foi o time de Juninho Pernambucano que venceu – foi o futebol. Foi a torcida brasileira. Ironicamente, exatamente quando ela mais sofria em silêncio, se vendo obrigada a esvaziar as novas super-arenas por não aguentar o pesado ritmo imposto pela ganância desmedida dos mandatários da bola.

Ontem, os nossos 190 milhões de súditos da bola puderam, enfim, acreditar num sopro de inocência.

Ainda existe amor no futebol.

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