O VELÓRIO DO IMPOSSÍVEL

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Que fique marcada na pele e na alma das próximas gerações atleticanas esta verdade retumbante: o Futebol desconhece o impossível.

Quem esteve hoje na Vila Capanema é prova cabal disso. E mesmo quem não esteve, só de ler os feitos do Clube Atlético Paranaense – até agora indecifráveis –, também tratará de entoar a epopeia aos quatro ventos.

Pois o que vimos nessa noite, meus amigos, ainda não foi categorizado. Por certo mesmo, sabemos unicamente que não pertence à categoria do lógico, nem do viável, nem do factível.

Hoje, testemunhamos a morte concreta do impossível – depois desse Atlético-PR vs Sporting Cristal, é lícito que tudo aconteça.

Daqui em diante, não há jogo que não possa ser virado, partida que não possa ser empatada, troféu que não possa ser trazido para casa. Ao Furacão, tudo passa agora ao terreno do alcançável.

Mas, se ainda assim o menor sinal de hesitação quiser ocupar o coração rubro-negro na hora da angústia, eu rogo que Manoel, com sua categoria de zagueiro aprendiz de meia-cancha, afugente o pensamento pecaminoso como afasta uma bola de dentro da área. E que Ederson, com a frieza medonha de um artilheiro contumaz, instaure, com bombas de pé direito, o mais doce e afável pensamento de certeza – “vai dar, sempre deu, não vai ser hoje”.

Porque seja qual for a circunstância, independente do milagre necessário, do desafio pavoroso pela frente, quem veste a camisa do Clube Atlético Paranaense perdeu hoje o direito de duvidar.

Foto: Albari Rosa / Gazeta do Povo

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A REENCARNAÇÃO DA VELHA BAIXADA

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Parem as máquinas, meus amigos.

Cessem o que quer que estejam fazendo, porque trago uma notícia lúgubre para compartilhar com os senhores: fomos todos irremediavelmente enganados pelo ardiloso Clube Atlético Paranaense.

Sim, meus caros, somos frágeis vítimas de uma contravenção perfeitamente legal.

Falo da escolha do estádio temporário em que o Atlético escolheu mandar seus jogos enquanto sua Arena recebe um banho de prata para a Copa do Mundo de 2014.

Enquanto todos os clubes que cederam suas praças à Fifa e seus confrades indicaram, inocentes feito crianças, campos neutros para mandar seus jogos, o Furacão escolheu a perniciosa reencarnação daquele que foi o seu estádio por toda a vida: a inóspita Velha Baixada.

Sim, meus amigos: o Estádio Durival Britto e Silva, alcunhado de Vila Capanema, é o parasita ideal para receber uma alma antiga, que o futebol brasileiro pensava estar soterrada pela memória pobre de todos nós.

Sobre aquele campo cansado do Paraná Clube paira a pesada atmosfera do antigo Caldeirão.

Olhem bem. Mirem com cuidado, meus amigos. Está tudo lá.

Os alambrados frágeis são os mesmos que um dia cederam ao peso da comemoração incontida de Oséas e Paulo Rink, depois de um Atletiba incontestável em 1995. As arquibancadas frias, tal qual as tubulares de antigamente, oscilam ao sabor dos cânticos fervorosos da massa atleticana. A proximidade entre a torcida inflamada e os jogadores em campo é a mesma, como que medida com régua, oprimindo especialmente os laterais e pontas adversários, que jogam sob o medo terrível de ter suas camisas arrancadas pelos arquibaldos desse opressivo campo de batalha.

Tudo ali lembra à perfeição o saudoso Joaquim Américo.

E assim, numa manobra oculta, o Atlético-PR tem jogado confortavelmente em casa, empurrado pelo pulso ostensivo de um estádio que jamais vai morrer, mesmo tendo sido posto ao chão 15 anos atrás. E o mais engenhoso capítulo do golpe dos sulistas é este: deixar o país todo pensar que o time está saudoso de sua cancha própria. “Vamos pegar o Atlético Paranaense em campo neutro. Dá pra ganhar”, pensam os desavisados adversários, enquanto a metade vermelha de Curitiba não desmente, apenas sorri afavelmente e concorda com a cabeça, num gesto mais falso que a notícia de um novo Pelé.

Com essa reencarnação vil – que já é terrível no longo Campeonato Brasileiro e torna-se implacável na curtíssima Copa do Brasil, onde jogar numa casa despótica beneficia largamente o mandante – o Furacão vem prevalecendo arbitrariamente sobre incontáveis times.

Resta, agora, passar por um último adversário para, enfim, arrastar para o Joaquim Américo a taça inédita da Copa do Brasil.

Acontece que o combatente de agora não está carente de um estádio, como o Palmeiras das oitavas ou o Internacional das quartas. Antes, está vivendo os primeiros e melhores dias do reencontro com a velha casa, que calha ser o mais místico teatro do Futebol. Um hostil terreno com quem o mandante do derradeiro jogo mantém uma tórrida relação de paixão e êxtase.

Nesse duelo emblemático de rubro-negros, o Flamengo – de Jayme e não de Mano – tem a árdua tarefa de sair incólume do alçapão atleticano.

E no jogo de volta, o Maracanã ocupa o papel de última fortaleza – é o único contraveneno capaz de frear a turbulência que a reencarnação da Velha Baixada faz ressoar pelo país.

Foto: Fernando Freire/Globoesporte.com

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