O POVO QUE REDESCOBRIU O FUTEBOL

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Daqui a 50 anos, um avô de memória fraca e olhos marejados colocará seu neto no colo para escalar, um a um, os escretes que duelaram hoje no Estádio Willie Davids. Passo a passo, passe a passe, contará os feitos de Reginaldo, Cristiano e Max, narrará as façanhas medonhas de Celsinho, Djair e Rone Dias.

O que vimos hoje, meus amigos, foi o maior conserto já estabelecido pelo Futebol do Paraná.

Sim, porque foi um pedido público de desculpas dos roteiristas deste esporte, que, por muitos anos, cismaram em sonegar uma final entre as duas maiores cidades do interior do estado.

A cláusula pétrea da constituição que exigia a presença de Coritiba, Atlético ou Paraná no último jogo do certame foi rasgada bem ali, no gramado que acaba de entrar para a história.

Os que pensam que foi apenas uma decisão de Campeonato Paranaense não sabem da missa a metade. Foi muito mais do que isso. Hoje, Londrina e Maringá decidiram que há, sim, Futebol nos âmagos das duas cidades. E que sua gente vive, sim, por seus clubes.

Foi um jogo enorme, amigos. Desses que ficam tatuados para sempre no nosso espírito, desses em que os guerreiros vestem a alma pelo lado de fora e entregam todo o limite do corpo até às menores divididas. Foi uma guerra santa, que vingou toda uma população. Lances belos, cabe dizer, eram escassos. Mas em vez disso, víamos aos borbotões uma vontade há muito tempo sumida dos nosso campos. Hemorragias dantescas de suor pintavam as camisas. E nem sequer uma bola saiu pela linha lateral sem antes vermos uma briga desmedida por ela. Ao último apito, o campo estava tomado por corpos caídos, exauridos por esta batalha sagrada do Willie Davids.

A igualdade salomônica do placar – 2 a 2 no primeiro duelo, 1 a 1 hoje – provou a indecisão dos Roteiristas do Futebol diante da disputa. Se o regulamento permitisse, melhor seria que encerrassem o jogo num empate definitivo e, de uma só vez, decretassem que o vencedor era todo o povo do norte do estado.

Sim, meu amigos, porque uma decisão deste tamanho devolve, inapelavelmente, o amor ufanista pelos clubes das duas principais cidades do interior. E essa é, sem qualquer espécie de dúvida, a mais fundamental das vitórias.

Amanhã, todos os que vivem por estas bandas, abandonarão suas camisas do Corinthians, do São Paulo, do Santos e do Palmeiras e esquecerão os fardamentos do Internacional e do Grêmio. Enfim, entendemos que não precisamos mais deles – vive, com bravura indócil, o Futebol da nossa terra.

Obrigado, paulistas e gaúchos, pelo afago que vocês nos emprestaram até agora. Foi aprazível, é verdade, ver seus esquadrões importantes desfilando garbo e elegância pelas telas das nossas televisões. Mas agora, se vocês não se importam, nós seguimos o nosso próprio caminho. Nossos pulmões serão empenhados unicamente pelos nossos clubes. De hoje em diante, renovamos nosso compromisso com o que é proveniente deste chão – o Futebol voltou a Londrina e a Maringá.

Foto: Felipe Rosa / Gazeta do Povo

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